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A Rainha e a Reversão: D. Maria I, a Viradeira e a Crise do Sistema Colonial (1777–1807)

A Rainha e a Reversão: D. Maria I, a Viradeira e a Crise do Sistema Colonial (1777–1807)
Maria I ao lado de Pedro III, Rei de Portugal e Algarves / Crédito: Domínio Público via Wikimedia Commons

Em fevereiro de 1777, D. José I morreu sem que ninguém tivesse certeza do quanto sobrara dele para morrer. Assustado pelo terremoto de 1755 ao ponto de nunca mais conseguir dormir sob um teto fixo, o rei passara as últimas décadas governando por procuração — assinando os decretos que Pombal redigia, exilando quem Pombal indicava, executando os planos que Pombal concebia. Quando morreu, Portugal tinha um nome para o fenômeno: chamavam aqueles anos de governo pombalino, não de reinado josefino. A distinção revelava tudo.

Sua filha, D. Maria I, chegou ao trono com uma conta a ajustar e com aliados à espera. Os nobres que Pombal havia humilhado e exilado, os clérigos cujas ordens haviam sido perseguidas, as famílias que haviam perdido parentes nas devassas — todos aguardavam a reversão. Tiveram-na. O período que se seguiu ficaria conhecido na historiografia como a Viradeira: a grande guinada conservadora que inverteu, em parte, a política pombalina.

Mas "em parte" é a expressão que o CACD cobra. A Viradeira foi uma reversão política, não uma liquidação institucional. O que Pombal havia construído sobreviveu em proporção muito maior do que seus adversários esperavam — e esse é o paradoxo que abre toda a análise do reinado de D. Maria I.


I. A Viradeira: o que foi revertido e o que permaneceu

A Viradeira não foi um decreto nem um manifesto — foi um processo político que se desenrolou nos primeiros anos do reinado de D. Maria I e consistiu essencialmente em desfazer as perseguições pessoais de Pombal sem desmantelar as reformas institucionais que ele havia construído.

O que foi efetivamente revertido é claro e documentado. O Marquês de Pombal foi exilado para seus domínios na cidade que lhe dava o título — nunca seria julgado, porque D. Maria concluiu que a instrução de um processo formal contra o ex-ministro implicaria rever os atos de seu próprio pai, o que a soberania dinástica não tolerava. Os nobres perseguidos foram reabilitados: a família Távora, destruída no pós-atentado de 1758, foi formalmente inocentada e seus descendentes devolveram nome e honras. Os prisioneiros políticos que Pombal havia encarcerado foram libertados, incluindo o bispo de Coimbra e outros eclesiásticos. A relação com a Igreja Católica foi suavizada e a influência do clero nos negócios do Estado foi parcialmente restaurada. Os jesuítas continuaram expulsos — a supressão universal da Companhia pelo Papa Clemente XIV em 1773 havia criado um fato consumado que D. Maria não tinha condições nem interesse em reverter —, mas o tom antijesuítico e anticlerical do discurso oficial desapareceu.

O que permaneceu é igualmente claro — e historiograficamente mais relevante. O Erário Régio, criado em 1761, continuou funcionando como o centro das finanças públicas. A Reforma da Universidade de Coimbra, com suas faculdades de Matemática e Filosofia Natural, não foi revertida — os currículos científicos sobreviveram à Viradeira. As companhias de comércio pombalinas foram progressivamente esvaziadas, mas de forma gradual; a estrutura do monopólio comercial não desapareceu de um golpe. A separação entre o Estado do Grão-Pará e Maranhão e o Estado do Brasil, reorganizada por Pombal, permaneceu até sua extinção em 1774 — que, aliás, foi feita ainda no período pombalino.

O grande historiador Francisco Falcon, cuja Época Pombalina é referência canônica para o CACD, avalia que a Viradeira teve muito mais substância política do que institucional. Tratou-se da recomposição das relações de poder entre a Coroa e os grupos que Pombal havia marginalizados — nobreza tradicional, alto clero — sem que o arcabouço racional-burocrático que o ministro havia edificado fosse desmontado. Kenneth Maxwell, em sua biografia de Pombal, usa a imagem do esqueleto que permanece depois que a carne é removida: as estruturas sobrevivem, os homens que as animavam, não.

Para o CACD — armadilha de formulação: A banca pode afirmar que "a Viradeira promoveu o desmantelamento completo das reformas pombalinas, restaurando as estruturas políticas e administrativas do período anterior a 1750." Essa formulação é ERRADA. A Viradeira foi reversão política e pessoal — reabilitação de perseguidos, recomposição com a Igreja, exílio de Pombal —, não desmontagem institucional. O Erário Régio, a reforma de Coimbra e o arcabouço burocrático pombalino sobreviveram.

II. O Alvará de 1785: a medida mais controversa do reinado

Se a Viradeira foi mais moderada do que os adversários de Pombal esperavam, a medida mais impactante do reinado de D. Maria I para a América portuguesa foi, paradoxalmente, uma intensificação — e não uma reversão — da lógica mercantilista colonial.

Em janeiro de 1785, D. Maria I assinou o Alvará que proibia a instalação de manufaturas no Brasil. O decreto determinou o fechamento de todas as fábricas e manufaturas existentes na colônia, com exceção das produções de tecido grosseiro de algodão usadas no vestuário de escravos e das indústrias diretamente ligadas à agricultura de exportação — engenhos, prensas, prensas de algodão. O argumento oficial era econômico: as manufaturas coloniais desviavam mão de obra que deveria estar nas lavouras e competiam com as produções metropolitanas, violando o princípio do exclusivo.

O impacto do alvará sobre o Brasil foi severo e simbólico ao mesmo tempo. Severo porque liquidou iniciativas manufatureiras que haviam começado a emergir, especialmente na região mineradora em crise — onde a retração da mineração tornava a diversificação produtiva uma necessidade econômica urgente. Simbólico porque revelava a lógica implacável do pacto colonial no momento em que ele estava começando a se tornar insustentável: quando a mineração declina e a colônia tenta se reindustrializar, a metrópole intervém para barrar o processo.

A historiografia econômica avalia o Alvará de 1785 com nuance que o CACD cobra: ele foi uma medida mercantilista no sentido clássico — reafirmação do exclusivo colonial e subordinação da economia colonial à metrópole —, mas também foi uma medida contraproducente do ponto de vista da própria renda colonial, ao impedir a diversificação que poderia ter compensado o declínio aurífero. Fernando Novais, em Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial, identifica o Alvará de 1785 como um dos documentos mais expressivos do momento em que o Antigo Sistema Colonial começa a contradizer seus próprios objetivos: o que era para fortalecer a extração metropolitana acabou acelerando a crise ao tornar a colônia menos capaz de gerar renda nova.

O capítulo final do alvará é revelador: quando D. João VI chegou ao Brasil em 1808 e assinou a carta régia revogando a proibição de manufaturas, esse ato foi uma das primeiras e mais aplaudidas decisões do período joanino — o que indica o grau de ressentimento que o alvará havia acumulado em duas décadas de vigência.

Para o CACD — dado factual direto: O Alvará de 1785 proibiu manufaturas na América portuguesa sob o reinado de D. Maria I. Sua revogação se deu em 1808, pelo príncipe regente D. João, como parte das medidas iniciais da transmigração da Corte. A banca cobra a autoria da proibição (D. Maria I, 1785) e a da revogação (D. João, 1808) separadamente. Confundir os dois — atribuir a revogação a D. Maria I ou a proibição a Pombal — é erro frequente.

III. O renascimento agrícola: a expansão que a historiografia recuperou

O reinado de D. Maria I coincide com um fenômeno econômico que a historiografia mais antiga negligenciou mas que o CACD passou a cobrar explicitamente nas provas mais recentes: o renascimento agrícola colonial do último quartel do século XVIII.

A narrativa tradicional tendia a pintar o período pós-pombalino como fase de estagnação e crise — o declínio do ouro não sendo compensado por nada. Essa leitura é hoje considerada imprecisa. Entre aproximadamente 1770 e o início do século XIX, a América portuguesa viveu uma ampla expansão socioeconômica baseada na diversificação agrícola, na recuperação global dos preços dos principais produtos agroexportáveis e no fortalecimento dos mercados internos e dos grupos mercantis coloniais.

Os vetores dessa expansão eram geograficamente distintos e setorialmente variados:

O algodão maranhense é o caso mais dramático. A Companhia do Grão-Pará e Maranhão, criada por Pombal em 1755, havia introduzido o cultivo algodoeiro em escala comercial no Maranhão. O resultado tardou uma geração para se materializar, mas foi extraordinário: no período de D. Maria I, o Maranhão tornou-se o grande fornecedor de algodão para a indústria têxtil inglesa, especialmente após a Revolução Industrial começar a demandar fibra em volumes que o mercado americano ainda não supria com regularidade. São Luís cresceu demograficamente e economicamente a um ritmo que a tornava, no fim do século XVIII, uma das cidades mais prósperas da colônia. O algodão respondia por cerca de 75% das exportações maranhenses na virada do século.

O açúcar nordestino recuperou parte da centralidade que havia perdido durante o apogeu minerador. A crise da produção açucareira antilhana — especialmente após a Revolução Haitiana de 1791, que destruiu a produção de São Domingos, então a maior produtora mundial — abriu espaço para a reexpansão açucareira do Nordeste brasileiro, especialmente Pernambuco e Bahia. Os preços do açúcar no mercado europeu subiram substancialmente na última década do século XVIII, e os engenhos nordestinos responderam com aumento de produção.

O couro e o charque do extremo sul desenvolveram circuitos próprios de exportação, conectando os campos sulinos ao mercado colonial interno e ao mercado europeu via Colônia do Sacramento e, depois, via Rio Grande de São Pedro. A pecuária sulina, que havia se expandido ao longo do século XVIII como atividade subsidiária das monções e dos circuitos de abastecimento das Minas, consolidava-se como setor exportador autônomo.

O cacau e o arroz amazônicos continuavam os produtos herdados do impulso pombalino na região, mantendo a Amazônia integrada aos circuitos do comércio colonial mesmo após o esvaziamento progressivo das companhias de comércio.

Essa diversificação é crucial para compreender a conjuntura colonial no momento em que a Corte chegou ao Brasil em 1808. A historiografia que identificava a abertura dos portos como resposta a uma economia colonial em colapso foi revista: o que D. João encontrou não era uma colônia estagnada, mas uma economia colonial em expansão agrícola real, cujos grupos mercantis haviam se fortalecido e cujos interesses com o mercado internacional já pressionavam os limites do exclusivo metropolitano. A abertura dos portos não foi uma tábua de salvação — foi a legalização de uma realidade que já existia nas margens do sistema.

Para o CACD — armadilha de leitura econômica (gabarito explícito nos documentos da banca): A banca considerou ERRADA a afirmação de que "a economia colonial do Brasil, de modo geral, teria sido 'tolhida' ou prejudicada na/pela conjuntura de transmigração da família real e corte lisboeta para o Rio de Janeiro em 1808." A interpretação correta é que o Brasil vivia, entre o último quartel do século XVIII e o início do XIX, ampla expansão socioeconômica baseada na diversificação agrícola e na recuperação dos preços dos produtos agroexportáveis. 1808 não interrompeu uma trajetória de crise — potencializou uma trajetória de expansão já em curso.

IV. A crise mental de D. Maria I e a regência de D. João

A história política do reinado de D. Maria I tem uma virada que a historiografia trata com certa delicadeza mas que o CACD cobra como dado factual e como explicação causal: a rainha enlouqueceu.

Os primeiros sinais de desequilíbrio mental apareceram ainda na década de 1780, agravados provavelmente pela morte de seu filho mais velho, D. José, em 1788, e pela morte de seu marido, D. Pedro III, em 1786. A conjuntura europeia dos anos seguintes — a Revolução Francesa, a execução de Luís XVI em 1793, a expansão napoleônica — intensificou um quadro psiquiátrico que os médicos da época descreviam como melancolia com episódios de agitação extrema. Relatos coevos descrevem crises em que a rainha gritava durante horas sem controle, recusava-se a ser vestida ou movida, e alternava estados de prostrações absolutas com explosões de angústia religiosa.

O médico inglês Francis Willis — o mesmo que havia tratado o rei George III da Inglaterra — foi chamado a Lisboa em 1792. Seu diagnóstico foi sombrio: a rainha era incapaz de governar. A partir de então, o governo passou progressivamente às mãos de seu filho, o príncipe D. João, que assumiu a regência formal em 1799. D. Maria viveria por mais dois décadas — morreu no Rio de Janeiro em 1816 —, mas o governo do Império português pertencia na prática ao filho desde os anos 1790.

Essa transição tem implicações que o CACD cobra em múltiplos contextos:

Para a compreensão do período joanino, é fundamental entender que D. João governava como príncipe regente, não como rei, até a morte de D. Maria em 1816 — quando foi aclamado D. João VI. Questões sobre a cronologia do período joanino frequentemente envolvem a distinção entre o regente e o rei: D. João assinou a abertura dos portos (1808) e criou o Banco do Brasil como regente, não como soberano. A titulação importa para o CACD.

Para a compreensão do contexto da Inconfidência Mineira (1789) e da Conjuração Baiana (1798), é relevante saber que D. Maria I era a monarca reinante nesses momentos, ainda que em declínio cognitivo — e que a resposta repressiva a esses movimentos foi conduzida por um aparato administrativo já parcialmente operado pelos ministros do regente.

Para o CACD — erro cronológico frequente: A banca testa se o candidato sabe distinguir D. João como regente (1799–1816) e como rei (1816–1821, quando abdicou em favor de Pedro e retornou a Portugal). Afirmar que "D. João VI chegou ao Brasil em 1808" é rigorosamente impreciso — chegou como príncipe regente; tornou-se D. João VI apenas com a morte de D. Maria I em 1816.

V. O Tratado de San Ildefonso (1777): o primeiro ato do reinado

O primeiro grande ato de política externa do reinado de D. Maria I foi também um dos mais consequentes para a definição territorial do Brasil: a assinatura do Tratado de San Ildefonso, em outubro de 1777, com a Espanha.

O tratado era necessário por razões acumuladas ao longo do reinado anterior. O Tratado de Madri (1750) havia sido revogado pelo Tratado del Pardo (1761), que retornou à ambiguidade de Tordesilhas. A Guerra dos Sete Anos e seus desdobramentos americanos haviam produzido conflito militar na região platina, com forças espanholas ocupando parcialmente o Rio Grande de São Pedro ao longo da década de 1760. A situação da fronteira sul era de tensão crônica, e ambas as Coroas tinham interesse em uma solução negociada.

San Ildefonso retomou a lógica do Tratado de Madri — o uti possidetis como critério de soberania — e produziu uma solução de compromisso geograficamente precisa:

Portugal confirmava soberania sobre a Amazônia, o centro-oeste e o interior do continente — os territórios que as bandeiras e as monções haviam ocupado e que o Tratado de Madri havia legalizado pela primeira vez. Esta era a parte do acordo favorable a Portugal e, em última instância, ao Brasil.

Em contrapartida, Portugal cedia definitivamente os Sete Povos das Missões à Espanha. Era a solução para um problema que havia resistido ao Tratado de Madri: os guaranis das Missões haviam lutado militarmente contra a transferência em 1754–1756, e a disputa ficou pendente quando o Tratado del Pardo anulou o acordo de 1750. San Ildefonso finalmente encerrou a questão, consolidando a presença espanhola nos Sete Povos.

Portugal também cedeu a Colônia do Sacramento, o posto avançado no estuário do Prata que havia sido objeto de disputas desde sua fundação em 1680. A perda de Sacramento era politicamente sensível — era o principal instrumento de pressão portuguesa sobre Buenos Aires —, mas geograficamente aceitável dado o que Portugal ganhava em contrapartida: a confirmação da soberania sobre um território vastamente superior.

O Tratado de Santo Ildefonso deve ser distinguido com precisão dos demais tratados que a banca cobra na sequência cronológica. A cadeia completa é: Tordesilhas (1494) → Tratado de Madri (1750) → Tratado del Pardo (1761, revogação) → Tratado de San Ildefonso (1777) → Tratado de Badajoz (1801). San Ildefonso está no reinado de D. Maria I, não no período pombalino — Pombal havia caído em fevereiro de 1777, e o tratado foi assinado em outubro do mesmo ano, já sob a nova orientação política.

Para o CACD — armadilha de atribuição: A banca pode associar o Tratado de San Ildefonso ao período pombalino, dado que foi assinado no mesmo ano da morte de D. José I. A atribuição correta é ao início do reinado de D. Maria I — e é sob esse reinado que ele deve ser contextualizado, pois representou a primeira grande decisão de política externa da nova monarca, num sentido de acomodação diplomática com a Espanha que contrastava com a postura mais belicosa do final do período pombalino. A cedência dos Sete Povos foi aceita por D. Maria justamente porque ela não tinha os compromissos pessoais de Pombal com a política territorial anterior.

VI. Rodrigo de Sousa Coutinho: o pombalismo que sobreviveu à Viradeira

Um dos fatos mais reveladores sobre os limites da Viradeira é a trajetória de Rodrigo de Sousa Coutinho, futuro Conde de Linhares. Protegido e seguidor de Pombal, funcionário de carreira da burocracia pombalina, Rodrigo de Sousa Coutinho não só não foi atingido pela Viradeira como prosperou no reinado de D. Maria I e se tornaria o principal ministro do período de regência de D. João, sendo o arquiteto intelectual de boa parte das reformas joaninas.

Sua trajetória evidencia algo que o filósofo Antônio Paim sistematizou: o pombalismo como programa de Estado transcendeu o próprio período pombalino. A concepção de que o Estado deveria ser racional, centralizado, secularizado e capaz de gerir o Império com eficiência técnica — em vez de depender de mediadores eclesiásticos ou de aristocratas tradicionais — havia se instalado no corpo burocrático português e sobreviveu ao exílio do Marquês.

Rodrigo de Sousa Coutinho foi o principal responsável pela elaboração do projeto de "Memória sobre o melhoramento dos domínios de Sua Majestade na América" (c.1797), documento que antecipou muitas das reformas joaninas: defendia a transferência da Corte para o Brasil em caso de invasão francesa, a abertura do comércio colonial às potências amigas e o desenvolvimento do Brasil como principal joia do Império — ideias que D. João implementaria dez anos depois, sob a pressão napoleônica, como se fossem respostas improvisadas à conjuntura, quando na verdade haviam sido planejadas pela burocracia ilustrada portuguesa com antecedência.

Para o CACD, a figura de Rodrigo de Sousa Coutinho é o elo que conecta o pombalismo ao período joanino, impedindo que se trate 1777 e 1808 como rupturas absolutas. O reinado de D. Maria I não foi um intervalo de estagnação entre dois projetos de modernização — foi o período em que o projeto modernizador pombalino se consolidou na burocracia e se preparou para dar o passo seguinte.


VII. A crise fiscal e os levantes coloniais no reinado de D. Maria I

Os dois maiores levantes coloniais da história da América portuguesa ocorreram durante o reinado de D. Maria I — a Inconfidência Mineira (1789) e a Conjuração Baiana (1798) — e ambos têm raízes diretas na política fiscal e econômica do período.

A Inconfidência Mineira foi precipitada pela ameaça da derrama. O mecanismo fiscal que Pombal havia construído — a finta de cem arrobas de ouro por ano, com a derrama como sanção pelo deficit acumulado — continuava operando sob D. Maria I num contexto de declínio irreversível da produção aurífera. O anúncio do governador Luís da Cunha Meneses de que a derrama seria executada em 1789, cobrando compulsoriamente mais de 530 arrobas acumuladas de deficit, foi o estopim. A conspiração foi delatada antes de eclodir; apenas Tiradentes, o único a não se retratar, foi executado em abril de 1792.

A Conjuração Baiana de 1798 tinha causas socioeconômicas diferentes, mas igualmente ancoradas na conjuntura do reinado mariano. Salvador vivia carestia aguda: os preços dos gêneros de primeira necessidade haviam subido sem equivalente aumento de salários, num quadro de crise de abastecimento que afetava desproporcionalmente os estratos populares urbanos. A inspiração da Revolução Francesa — a "Revolução Francesa está aí", diziam os panfletos distribuídos nas ruas de Salvador — combinava com a visibilidade da Revolução Haitiana, que havia demonstrado que escravizados podiam não apenas se revoltar mas triunfar. A repressão foi brutal: quatro enforcamentos, e a excepcional dureza da punição se explicava pelo pavor das elites coloniais ante o espectro da haitianização do Nordeste brasileiro.

Para o CACD — contextualização correta: Tanto a Inconfidência Mineira quanto a Conjuração Baiana ocorreram sob D. Maria I, não sob Pombal. É erro cronológico comum situar esses eventos no período pombalino. O contexto imediato de ambos é o fiscal e o econômico do reinado mariano — a derrama como gatilho da Inconfidência, a carestia e o influxo de ideias revolucionárias como combustível da Conjuração. A conexão com Pombal é indireta: o mecanismo fiscal da derrama foi criado na era pombalina; a crise que ele gerou explodiu sob D. Maria I.

VIII. O Alvará de 1785 e a proibição de ourives: a intensificação da repressão

Antes do Alvará de 1785 — que foi o ato mais conspícuo do reinado —, D. Maria I herdou e aprofundou uma política de repressão às atividades econômicas coloniais que Pombal havia inaugurado. A proibição da profissão de ourives no Brasil, decretada em 1766, ainda no período pombalino, visava a controlar o contrabando de ouro — qualquer artesão que trabalhasse com metais preciosos era suspeito de desviar ouro da tributação régia. D. Maria I manteve e intensificou essa proibição.

O encadeamento entre a proibição dos ourives (1766, Pombal) e o Alvará de Manufaturas (1785, D. Maria I) é historicamente coerente: ambas as medidas respondiam à mesma ansiedade metropolitana diante do declínio aurífero — a suposição de que o deficit de arrecadação se devia ao contrabando e à diversificação produtiva da colônia, e que a solução era reprimir essas atividades. A historiografia econômica — e o Manual do Candidato do IRBr explicitamente — qualifica essa suposição como equivocada: o declínio da mineração não era produto do contrabando ou da diversificação, mas do esgotamento do ouro de aluvião. O mercantilismo predatório, intensificado pela política mariana, agravava o problema que pretendia resolver.


IX. O legado do reinado de D. Maria I: a crise do Antigo Sistema Colonial

O reinado de D. Maria I (1777–1799 de facto, 1777–1816 de jure) é o período em que a crise do Antigo Sistema Colonial atinge seu ponto de inflexão. Não é o momento em que o sistema explode — a explosão virá com a transmigração da Corte e a abertura dos portos em 1808 —, mas é o momento em que todas as suas contradições se tornam legíveis.

A contradição central é a que Fernando Novais formulou com precisão: o sistema colonial existe para transferir riqueza da colônia para a metrópole via exclusivo comercial. Quando a principal fonte dessa riqueza — o ouro — declina, o sistema responde intensificando a pressão extrativa sobre as fontes remanescentes: manufaturas proibidas, ourives perseguidos, derrama ameaçada. Mas ao intensificar a pressão, o sistema aumenta a resistência e acelera a percepção colonial de que o pacto é fundamentalmente desfavorável.

Ao mesmo tempo, o renascimento agrícola do período mariano — algodão, açúcar, couro — fortalecia grupos mercantis coloniais cujos interesses com o comércio internacional já não cabiam nos limites do exclusivo. Eram produtores que vendiam algodão para a indústria inglesa e açúcar para o mercado europeu, que precisavam de crédito, de navios e de acesso direto aos compradores — tudo o que o exclusivo metropolitano dificultava e que a abertura dos portos em 1808 finalmente liberou.

A convergência dessas duas tendências — crise fiscal da metrópole e expansão econômica colonial — é o que faz do reinado de D. Maria I um período de aceleração da crise sistêmica, mesmo que superficialmente pareça um período de estabilidade política. Quando a invasão napoleônica de 1807 forçou a transmigração da Corte, o Antigo Sistema Colonial já estava rachado de dentro. O que D. João fez em 1808 foi, em larga medida, reconhecer uma realidade que o reinado de D. Maria I havia produzido sem conseguir administrar.


Síntese para a prova

ConceitoInterpretação correta para o CACD
Viradeira = desmantelamento completo do pombalismoERRADO. A Viradeira reverteu perseguições pessoais e recompôs relações com nobreza e Igreja; o Erário Régio, a reforma de Coimbra e o arcabouço burocrático pombalino sobreviveram
Alvará de 1785Proibição de manufaturas na América portuguesa; assinado por D. Maria I; intensificação — não reversão — da lógica mercantilista colonial
Revogação do Alvará de 1785D. João VI (como regente), 1808 — uma das primeiras medidas da transmigração, junto com a abertura dos portos
Economia colonial no reinado de D. Maria I = estagnaçãoERRADO. Período de renascimento agrícola: algodão maranhense, açúcar nordestino (favorecido pela crise haitiana), couro/charque sulino
Inconfidência Mineira e Conjuração Baiana ocorreram sob PombalERRADO. Ambas ocorreram sob D. Maria I (Inconfidência: 1789; Conjuração: 1798). O mecanismo fiscal da derrama foi criado por Pombal; a crise explodiu sob D. Maria
D. João chegou ao Brasil como reiERRADO. Chegou em 1808 como príncipe regente. Tornou-se D. João VI apenas com a morte de D. Maria I em 1816
Tratado de San Ildefonso (1777)Primeiro grande ato de política externa de D. Maria I; retomou o uti possidetis; confirmou Amazônia e centro-oeste para Portugal; cedeu Sete Povos das Missões e Colônia do Sacramento à Espanha
San Ildefonso pertence ao período pombalinoERRADO. Assinado em outubro de 1777, já sob D. Maria I. Pombal caiu em fevereiro de 1777
Rodrigo de Sousa CoutinhoSeguidor de Pombal que prosperou sob D. Maria I e D. João; prova da continuidade do programa pombalino além do período pombalino; arquiteto intelectual de muitas reformas joaninas
Abertura dos portos (1808) como resposta a crise colonialParcialmente correto. A historiografia recuperou que o Brasil vivia expansão agrícola real; 1808 foi legalização de pressões já existentes, não tábua de salvação para economia em colapso
Proibição dos ourives (1766)Pombal; D. Maria I manteve e intensificou; lógica: combate ao contrabando de ouro — diagnóstico que a historiografia considera equivocado

Este artigo integra o módulo de História do Brasil Colonial do Acervo CACD. O próximo texto aborda o período joanino, a abertura dos portos e o processo de independência do Brasil (1808–1822).


Referências de aprofundamento

  • ALMEIDA, João Daniel Lima de. História do Brasil — Manual do Candidato. Caps. 1.7–1.8, 2.1. Brasília: FUNAG, 2013
  • NOVAIS, Fernando A. Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777–1808)
  • FALCON, Francisco C. A Época Pombalina
  • MAXWELL, Kenneth. Pombal: Paradox of the Enlightenment
  • SCHWARCZ, Lilia M.; STARLING, Heloisa M. Brasil: Uma Biografia. Caps. 5–6
  • FAUSTO, Boris. História do Brasil. Cap. 4
  • FRAGOSO, João; FLORENTINO, Manolo. O Arcaísmo como Projeto
  • DIAS, Maria Odila Leite da Silva. A Interiorização da Metrópole