14 min read

O Brasil que a Holanda Quis: As Invasões Holandesas no Nordeste Colonial (1624–1654)

O Brasil que a Holanda Quis: As Invasões Holandesas no Nordeste Colonial (1624–1654)
Victor Meirelles - 'Battle of Guararapes', 1879, oil on canvas, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

Em 9 de maio de 1654, os últimos soldados da Companhia das Índias Ocidentais embarcaram em Recife rumo à Europa. Deixavam para trás vinte e quatro anos de ocupação, uma cidade transformada, engenhos endividados e uma sociedade colonial que, ao expulsá-los, começava a elaborar uma narrativa sobre si mesma. A guerra contra os holandeses foi o maior conflito político-militar da colônia — e um dos episódios mais cobrados pelo CACD quando o tema é o Brasil colonial.

Compreendê-lo exige, porém, resistir a duas simplificações recorrentes: a da vitória heroica das "três raças unidas" e a do invasor holandês como vilão externo. O que as fontes revelam é mais complexo — e mais interessante. A expulsão dos holandeses do Nordeste não foi apenas um evento militar: foi o nó de um conjunto de consequências de longo prazo que moldaram tanto a economia do açúcar no Atlântico quanto a identidade regional pernambucana, a posição financeira de Portugal e — indiretamente — a fundação de Nova York.


I. Por que a Holanda veio: açúcar, capital e guerra

A invasão holandesa do Nordeste brasileiro não foi um ato de pirataria oportunista. Foi a aplicação de uma estratégia capitalista sofisticada, planejada no coração do sistema financeiro mais avançado da época.

Os holandeses conheciam o Brasil melhor do que qualquer outro povo não ibérico. Durante décadas, mercadores de Amsterdã e Antuérpia tinham refinado o açúcar brasileiro, financiado engenhos pernambucanos, distribuído o produto nos mercados europeus e cartografado o litoral nordestino com precisão que os próprios portugueses invejavam. Eram parceiros indispensáveis — até que a União Ibérica de 1580 os transformou em inimigos.

Com o fechamento dos portos ibéricos aos holandeses e a intensificação da guerra de independência das Províncias Unidas contra a Espanha, a resposta holandesa foi a criação da Companhia das Índias Ocidentais (WIC, West-Indische Compagnie), fundada em 1621. A WIC era uma empresa capitalista de caráter misto — privada nos lucros, estatal na estratégia — criada especificamente para atacar o Império ibérico no Atlântico. Seu objetivo no Brasil era direto: controlar as zonas produtoras de açúcar e as rotas do tráfico de escravizados que as alimentavam. Não havia interesse em diversificação econômica — havia interesse em dominar o monopólio do produto mais lucrativo do Atlântico.

Evaldo Cabral de Mello, em O negócio do Brasil (1998) — obra fundamental para o CACD neste tema —, argumenta que a WIC não era simplesmente uma empresa de pilhagem: era o instrumento de um projeto hegemônico holandês no Atlântico que envolvia, simultaneamente, a produção do açúcar, o controle do tráfico negreiro e a dominação das rotas comerciais. Esse projeto triplo é o que explica por que os holandeses combateram em Pernambuco e em Angola ao mesmo tempo.

Para o CACD — armadilha de 2024 (Q41, item 3 — ERRADO): "No século XVII, a presença holandesa nas capitanias do norte contribuiu para a diversificação da economia da região, o que se comprovou pelo crescimento das atividades de criação de caprinos e bovinos." ERRADO. A WIC tinha foco exclusivo no açúcar. A criação extensiva de caprinos e bovinos no sertão nordestino era fenômeno anterior à ocupação holandesa, associado à economia de abastecimento do interior — não resultado da presença flamenga no litoral.

II. Primeiro ato: Salvador (1624–1625)

O primeiro grande golpe holandês foi a tomada de Salvador em maio de 1624 — conquistada em apenas 24 horas, numa demonstração da superioridade naval da WIC. A rapidez da conquista, porém, não foi seguida pela capacidade de consolidação.

A resistência local foi imediata. Os chamados "homens bons" — proprietários, clérigos, colonos — refugiaram-se nas fazendas próximas e organizaram guerrilha urbana. O bispo Dom Marcos Teixeira assumiu a coordenação política da resistência, tornando-se a principal autoridade luso-brasileira enquanto não chegavam reforços da metrópole.

Esses reforços chegaram com força considerável: uma armada luso-espanhola de 52 navios e mais de 12 mil homens. Após combates intensos, os holandeses renderam-se em maio de 1625 — exatamente um ano após a conquista. O episódio demonstrou tanto a vulnerabilidade das defesas coloniais quanto a capacidade de resposta ibérica quando a Coroa mobilizava recursos. Mas também revelou algo estrutural: a defesa do Brasil dependia, em larga medida, da iniciativa das elites locais, não de forças regulares metropolitanas.

Para o CACD: O bispo Dom Marcos Teixeira como coordenador da resistência em Salvador é um dado que a banca usa para ilustrar o papel da Igreja como estrutura de poder colonial — não apenas religiosa, mas política e militar.

III. Segundo ato: a conquista de Pernambuco (1630–1637)

Expulsos da Bahia, os holandeses reorientaram seus planos para Pernambuco — o coração da produção açucareira. Em fevereiro de 1630, uma frota da WIC atacou e tomou Olinda e Recife. Desta vez, a ocupação seria permanente.

O primeiro período da ocupação pernambucana (1630–1637) foi marcado por uma guerra de resistência prolongada e brutal. Matias de Albuquerque, designado governador da região, organizou a resistência luso-brasileira a partir de arraiais no interior, adotando táticas de guerrilha que dificultaram a consolidação holandesa.

É nesse contexto que emerge a figura mais controversa do período: Domingos Fernandes Calabar. Nascido em Porto Calvo (atual Alagoas), mestiço de profundo conhecimento do território, Calabar desertou para os holandeses em 1632 e tornou-se seu mais valioso colaborador militar — guiando ataques, revelando posições e neutralizando estratégias portuguesas. Sua contribuição foi considerada decisiva para o avanço holandês ao Ceará e ao Rio Grande do Norte.

Calabar foi capturado, julgado e executado pelos luso-brasileiros em 1635. A historiografia contemporânea — especialmente a partir do dramaturgo Chico Buarque, que o reabilitou em peça homônima de 1973 — discute se Calabar era traidor ou simplesmente alguém que escolheu o lado aparentemente vitorioso numa guerra colonial que não era "sua." Para o CACD, o que importa é a dimensão factual: Calabar foi colaborador eficaz dos holandeses e foi executado pelos luso-brasileiros por isso.

Ao final desse primeiro período, os holandeses controlavam a faixa litorânea das capitanias do norte, do Ceará ao Rio São Francisco — a maior parte da zona açucareira do Brasil.


IV. Terceiro ato: Nassau e o Brasil holandês (1637–1644)

O ponto alto da ocupação holandesa foi o governo de João Maurício de Nassau-Siegen, conde alemão a serviço da WIC, que chegou ao Recife em janeiro de 1637 e governou até maio de 1644.

Nassau entendeu que a exploração econômica do território exigia estabilização política. Suas medidas foram pragmáticas e, para os padrões coloniais, inusitadas:

Economicamente, Nassau reativou a produção açucareira incentivando a venda a crédito dos engenhos abandonados pelos proprietários que haviam fugido para a Bahia. Criou condições para que senhores de engenho luso-brasileiros endividados continuassem produzindo — desde que pagassem à WIC. Também impôs o plantio de mandioca como medida contra a crise de abastecimento, reconhecendo que a monocultura do açúcar havia deixado o território dependente de importações alimentares.

Politicamente, Nassau adotou uma política de tolerância religiosa notável para a época: sendo calvinista, permitiu a prática do catolicismo pelos colonos luso-brasileiros e autorizou a prática pública do judaísmo — o que atraiu cristãos-novos que haviam vivido décadas em semiclandestinidade no Brasil português.

Urbanisticamente, Nassau transformou Recife. Elevou a cidade à condição de capital, substituindo Olinda, e fundou a Cidade Maurícia — planejada com traçado geométrico, canais e pontes inspirados em Amsterdã. Construiu palácios, jardins botânicos e um observatório astronômico que, no Brasil dos séculos XVI e XVII, não tinham paralelo.

Culturalmente, Nassau patrocinou a primeira missão científica e artística europeia às Américas. O pintor Frans Post registrou as paisagens do Nordeste em obras que hoje integram museus europeus; Albert Eckhout pintou retratos de africanos, indígenas e mestiços com precisão etnográfica. Georg Marcgraf e Willem Piso produziram a Historia Naturalis Brasiliae (1648) — a primeira obra científica sistemática sobre a natureza americana, compilando botânica, zoologia, astronomia e medicina indígena. Elias Herckmans produziu a Descrição Geral da Capitania da Paraíba (1639), um dos primeiros documentos de caráter geográfico e etnográfico sobre o interior do Nordeste.

Por que Nassau partiu? A resposta revela a contradição fundamental do projeto holandês. A WIC era uma empresa capitalista que esperava retorno financeiro imediato. Nassau governava como estadista, investindo em obras e política de médio prazo. Os acionistas consideravam seus gastos excessivos. Em 1644, Nassau voltou à Europa a pedido da Companhia. Sua saída removeu o único fator de coesão da ocupação — e preparou o terreno para a reconquista.


V. A comunidade judaica de Recife: Zur Israel e o exílio de 1654

Este é um dos aspectos mais cobrados pelo CACD em perspectiva de história atlântica e história das minorias — e completamente ausente na maioria dos materiais de preparação.

Durante o governo de Nassau, Recife tornou-se o lar da primeira comunidade judaica organizada das Américas. Cristãos-novos de origem sefardita — descendentes dos judeus expulsos da Península Ibérica em 1492 e 1497, que haviam se convertido formalmente ao catolicismo mas mantinham práticas judaicas em segredo — chegaram ao Recife em número crescente a partir de 1630. Sob a proteção da tolerância nassoviana, puderam praticar o judaísmo abertamente.

A sinagoga Zur Israel ("Rocha de Israel"), fundada em 1636, foi a primeira sinagoga das Américas. Recife chegou a abrigar uma comunidade de cerca de 1.500 judeus — uma das maiores do mundo ocidental da época, comparable às de Amsterdã. A comunidade tinha rabi, tribunal rabínico, escola, cemitério e funcionava como polo de uma rede atlântica de comércio sefardita que conectava o Nordeste brasileiro a Amsterdã e ao Mediterrâneo.

Com a derrota holandesa em 1654, a situação desses judeus tornou-se insustentável: retornar ao domínio português significava retornar à jurisdição da Inquisição. A maioria embarcou para o Caribe holandês (Suriname, Curaçao). Um grupo de 23 chegou, em setembro de 1654, ao porto de Nova Amsterdã — a colônia holandesa na ponta sul da ilha de Manhattan que os ingleses renomeariam, dez anos depois, Nova York. Esses 23 refugiados foram os primeiros judeus a se estabelecer permanentemente na América do Norte.

Para o CACD: A conexão Recife → Nova York é um dos elos mais cobrados pelo CACD quando as questões cruzam história colonial brasileira com história atlântica. A afirmação "os judeus sefarditas que habitavam Recife durante a ocupação holandesa estabeleceram-se, após a reconquista portuguesa, em colônias holandesas do Caribe e na América do Norte" é CERTA — e a banca usa variantes desta assertiva para testar se o candidato conhece a dimensão atlântica do episódio.

VI. Quarto ato: a insurreição e os Guararapes (1645–1654)

Com a saída de Nassau, a situação dos colonos luso-brasileiros endividados com a WIC tornou-se insustentável. A Companhia pressionava por pagamentos que a economia açucareira, já em declínio de preços, não conseguia honrar. Senhores de engenho que haviam colaborado com os holandeses por conveniência passaram à resistência por necessidade.

A Insurreição Pernambucana de 1645 foi liderada por uma coalização que o CACD cobra com frequência:

  • André Vidal de Negreiros e João Fernandes Vieira — grandes proprietários que lideraram a revolta dos senhores de engenho
  • Henrique Dias — negro liberto que comandou contingente de africanos e afro-brasileiros; sua tropa chegou a 300 soldados, representando aproximadamente 10% da força luso-brasileira
  • Filipe Camarão (nome português de Poti, líder Potiguar) — comandante dos contingentes indígenas aliados aos portugueses

A composição dessa aliança é historicamente importante — e historiograficamente polêmica. O século XIX transformou os Guararapes em símbolo do nascimento da "nação brasileira", com as três raças unidas expulsando o invasor. Lilia Schwarcz e a historiografia contemporânea mostram que essa narrativa é uma construção retroativa: o que havia era uma coalização de interesses distintos, não um projeto nacional. Henrique Dias lutava com distinções sociais dentro do campo luso-brasileiro; Camarão defendia alianças que julgava mais favoráveis aos Potiguar; os senhores de engenho protegiam seu patrimônio. A unidade foi tática, não identitária.

As Batalhas de Guararapes — travadas em abril de 1648 e fevereiro de 1649 na Serra dos Guararapes, ao sul de Recife — foram o ponto de virada militar. As forças luso-brasileiras derrotaram decisivamente os holandeses em campo aberto, usando a tática da "guerra volante" — mobilidade, conhecimento do terreno e emboscadas — contra a infantaria regular da WIC. Após Guararapes, os holandeses retrocederam para Recife e nunca mais recuperaram a iniciativa militar.

Mas a guerra não terminou em 1649. O cerco a Recife durou mais cinco anos. O que finalmente forçou a capitulação holandesa foi a combinação de três fatores: o esgotamento financeiro da WIC; o enfraquecimento da Holanda pela Primeira Guerra Anglo-Holandesa (1652–1654); e o cerco naval português a Recife iniciado em 1653. A capitulação final foi assinada em 26 de janeiro de 1654.


VII. O front africano: Angola e o circuito atlântico

Um aspecto que o CACD cobra diretamente — e que a narrativa nacionalista frequentemente omite — é que a guerra pelo Brasil holandês foi também uma guerra africana.

Os holandeses sabiam que controlar o açúcar sem controlar o fornecimento de escravizados era insustentável. Em 1641, aproveitando a instabilidade do período pós-Restauração portuguesa, a WIC tomou Luanda e Benguela — as principais fontes do tráfico negreiro para o Nordeste. Cortado o abastecimento de escravizados, os engenhos de Pernambuco pararam de funcionar adequadamente.

A reconquista de Angola em 1648 foi, portanto, condição necessária para a reconquista do Brasil. A expedição foi liderada por Salvador Correia de Sá e Benevides, financiada pelas elites do Rio de Janeiro — que tinham interesse direto no tráfico negreiro — e executada com recursos coloniais, sem apoio regular da Coroa portuguesa. Uma armada construída no próprio Rio de Janeiro, com mão de obra indígena, partiu e tomou Luanda dos holandeses.

Esse episódio é duplamente significativo para o CACD: demonstra a interligação entre os frontes brasileiro e africano como estrutura do Atlântico colonial; e ilustra a autonomia militar das elites coloniais — a mesma dinâmica que reaparece no episódio das ordenanças contra Duclerc em 1710, cobrado no artigo sobre as invasões francesas.


VIII. A Paz de Haia (1661) e a indenização portuguesa: o preço da vitória

Esta é a seção mais negligenciada nos materiais de preparação — e uma das mais cobradas pelo CACD em questões que cruzam história colonial com política externa.

A capitulação militar de 1654 não encerrou o conflito diplomaticamente. A WIC — embora derrotada no campo — sustentou que tinha direitos legítimos sobre o Nordeste brasileiro, estabelecidos por conquista, e exigiu compensação pela perda. Portugal, que em 1654 era um reino ainda fragilizado pela guerra com a Espanha e dependente da aliança inglesa, não estava em posição de simplesmente ignorar a reivindicação.

O resultado foi a Paz de Haia (1661): Portugal pagou à Holanda uma indenização de 4 milhões de cruzados (equivalente a cerca de 63 toneladas de ouro) em troca do reconhecimento formal da soberania portuguesa sobre o Nordeste. O tratado incluía também concessões comerciais e a cessão de algumas possessões menores no Ásia e na África.

O pagamento tinha consequências fiscais imediatas para a colônia: uma parte substancial do montante foi coberta com recursos do próprio Brasil — açúcar, ouro e contribuições forçadas das câmaras coloniais. Era a colônia pagando pela confirmação de sua própria soberania, sem que a metrópole arcasse com o custo integral.

Evaldo Cabral de Mello, em O negócio do Brasil, analisa esse episódio como revelador da lógica das relações Portugal-Brasil no século XVII: a Coroa portuguesa tendia a tratar os interesses coloniais como moeda de troca nas negociações europeias, sacrificando concessões que pesavam sobre a colônia para garantir vantagens diplomáticas para a metrópole. Essa dinâmica estrutural — que Cabral de Mello chama de "o negócio do Brasil" — reaparece em cada grande negociação envolvendo os interesses brasileiros ao longo do período colonial.

Para o CACD: A Paz de Haia (1661) é frequentemente omitida das narrativas que terminam com a capitulação de 1654. A banca usa essa omissão: a afirmação "a expulsão dos holandeses em 1654 encerrou completamente o conflito luso-holandês pelo controle do Nordeste" é ERRADA — o conflito teve desdobramento diplomático até 1661 e custos financeiros que recaíram sobre a colônia. Tratar 1654 como o ponto final é ignorar a dimensão diplomática do episódio.

IX. O legado estrutural: o Caribe e o fim da hegemonia açucareira brasileira

A consequência de longo prazo mais significativa das invasões holandesas — e a mais frequentemente negligenciada — não foi geopolítica nem financeira: foi econômica, e seus efeitos foram permanentes.

Durante a ocupação do Nordeste, os holandeses acumularam conhecimento técnico preciso sobre a produção açucareira: o funcionamento dos engenhos, as técnicas de refino, as variedades de cana mais produtivas, a organização do trabalho escravizado, o calendário agrícola tropical. Com a derrota de 1654, esse conhecimento não ficou no Brasil — foi embarcado junto com os soldados.

A WIC e os comerciantes holandeses transferiram essa tecnologia para as Antilhas. A partir de meados do século XVII, Barbados (colônia inglesa), Suriname e Jamaica começaram a produzir açúcar com técnicas aprendidas no Brasil, usando mão de obra africana igualmente importada em larga escala. O resultado foi a criação de um polo produtor alternativo que em poucos decênios superaria o Nordeste brasileiro em produtividade e custos.

Os efeitos sobre a economia colonial brasileira foram catastróficos e duradouros. Os preços do açúcar no mercado europeu caíram progressivamente ao longo da segunda metade do século XVII — exatamente no momento em que os engenhos pernambucanos se reconstruíam das décadas de guerra. O Brasil, que havia produzido mais de 90% do açúcar consumido na Europa no início do século XVII, viu sua participação de mercado erodida de forma irreversível.

Esse colapso relativo é um dos determinantes mais importantes do contexto que gerou as revoltas do final do século XVII e início do XVIII — incluindo a Guerra dos Emboabas e, mais amplamente, a corrida ao ouro como alternativa ao declínio açucareiro. O ciclo do ouro não foi apenas uma descoberta: foi uma resposta a uma crise. E a crise tinha origem direta na transferência holandesa do know-how açucareiro para o Caribe.

Para o CACD — encadeamento cross-disciplinar: A afirmação "a concorrência caribenha ao açúcar brasileiro no século XVII foi consequência direta da ocupação holandesa do Nordeste" é CERTA — e constitui uma das conexões mais sofisticadas que a banca cobra, ligando história colonial, economia e política externa. O candidato que só conhece a narrativa militar perde essa dimensão estrutural.

X. O legado político: nativismo, identidade e memória

As consequências das invasões holandesas moldaram a cultura política do Nordeste por gerações.

Boris Fausto aponta que a expulsão dos holandeses produziu em Pernambuco um nativismo — sentimento de identidade regional baseado na experiência de resistência e vitória — que perdurou por quase dois séculos. Esse nativismo seria invocado em momentos posteriores de tensão com o poder central: a Revolução Pernambucana de 1817, que seus líderes chamaram de "segunda restauração de Pernambuco"; a Confederação do Equador de 1824; e a Praieira de 1848 — todas mobilizaram a memória dos Guararapes como fundamento de legitimidade.

O financiamento da reconquista é igualmente revelador. Na primeira fase da resistência, os recursos locais financiaram cerca de dois terços dos gastos militares. Na fase final, quase todo o financiamento veio do próprio Nordeste — sem dependência da metrópole. Lilia Schwarcz destaca que isso demonstrou uma capacidade de mobilização autônoma das elites coloniais que a Coroa portuguesa preferia ignorar. Quando a guerra terminou, Portugal reivindicou a vitória; quem havia pago e lutado era principalmente a colônia.

Para o CACD, a implicação analítica é clara: a experiência da resistência aos holandeses foi o primeiro episódio formativo de uma identidade regional específica — não "brasileira" no sentido nacional moderno, mas pernambucana, fundada sobre uma memória de autossuficiência militar e política que colocava em questão a necessidade e a legitimidade do controle metropolitano. Essa identidade foi o substrato sociológico de todas as revoltas pernambucanas posteriores.


Síntese para a prova

ConceitoInterpretação corretaArmadilha frequente
WIC fundada em 1621Projeto hegemônico triplo: açúcar + tráfico negreiro + rotas comerciais atlânticas"WIC era empresa puramente comercial sem estratégia política" — INCOMPLETO
Holandeses diversificaram a economia nordestinaWIC focava exclusivamente no açúcar; criação extensiva no sertão era fenômeno anterior"Caprinos e bovinos = legado holandês" — ERRADO (2024, Q41 item 3)
CalabarColaborador militar eficaz dos holandeses; executado pelos luso-brasileiros em 1635; dimensão moral é debate historiográficoReduzir a questão a "traidor" ou "herói" sem contextualizar — SIMPLIFICAÇÃO
Nassau governou 1637–1644Tolerância religiosa, crédito para engenhos, Cidade Maurícia, missão científica; saiu por pressão financeira da WIC"Nassau foi expulso pelos luso-brasileiros" — ERRADO; saiu a pedido da própria Companhia
Sinagoga Zur Israel (1636)Primeira sinagoga das Américas; comunidade de ~1.500 judeus; prática judaica pública tolerada por Nassau"Judeus praticavam judaísmo clandestinamente durante a ocupação holandesa" — ERRADO
Judeus após 1654Maioria foi para Caribe holandês (Suriname, Curaçao); 23 chegaram a Nova Amsterdã (futura Nova York)"Os judeus de Recife retornaram à Europa após 1654" — INCOMPLETO
Guararapes = "três raças unidas"Mito do séc. XIX; coalização de interesses distintos, não projeto nacionalTratar a narrativa das "três raças" como fato histórico — ERRO HISTORIOGRÁFICO
Henrique Dias e Camarão~10% da força luso-brasileira era negra (tropa de Henrique Dias); Camarão liderava contingentes Potiguar"Os africanos e indígenas participaram por identidade brasileira" — ANACRONISMO
Angola reconquistada em 1648Salvador Correia de Sá; financiada pelas elites do Rio; sem apoio regular da Coroa; condição necessária para reconquista do Brasil"A reconquista foi operação puramente militar portuguesa" — ERRADO
Capitulação de 1654 como fim do conflitoA guerra teve desdobramento diplomático até a Paz de Haia (1661)"1654 encerrou completamente o conflito luso-holandês" — ERRADO
Paz de Haia (1661)Portugal pagou 4 milhões de cruzados (~63t de ouro) para reconhecimento da soberania; parte cobrada da própria colônia"A vitória de 1654 foi gratuita para Portugal" — ERRADO
Transferência tecnológica para o CaribeKnow-how açucareiro holandês transferido a Barbados, Suriname e Jamaica; concorrência derrubou preços do açúcar brasileiro na 2ª metade do séc. XVII"A crise do açúcar colonial não teve relação com as invasões holandesas" — ERRADO
Historia Naturalis Brasiliae (1648)Marcgraf + Piso; primeira obra científica sistemática sobre a natureza americanaConfundir com o trabalho artístico de Frans Post ou Eckhout — DISTINÇÃO DE FUNÇÃO
Nativismo pernambucanoIdentidade regional fundada na resistência; mobilizada em 1817, 1824 e 1848"A memória dos Guararapes não teve relevância política posterior" — ERRADO
Evaldo Cabral de MelloO negócio do Brasil: Coroa sacrificava interesses coloniais em negociações europeias; análise da Paz de Haia como padrão estruturalIgnorar a dimensão diplomático-financeira do episódio — LACUNA ANALÍTICA

Este artigo integra o módulo de História do Brasil Colonial do Acervo CACD. O próximo texto aborda o ciclo do ouro e a sociedade mineradora no século XVIII.


Referências de aprofundamento

  • FAUSTO, Boris. História do Brasil. Cap. 2
  • SCHWARCZ, Lilia M.; STARLING, Heloisa M. Brasil: Uma Biografia. Cap. 3
  • MELLO, Evaldo Cabral de. O negócio do Brasil: Portugal, os Países Baixos e o Nordeste, 1641–1669. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998
  • MELLO, Evaldo Cabral de. Rubro Veio: o imaginário da restauração pernambucana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986
  • ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O Trato dos Viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul. Caps. 4–5
  • ALMEIDA, João Daniel Lima de. Manual do Candidato — História do Brasil. FUNAG, 2013, Cap. 1.3