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O Inimigo Hereditário: As Invasões Francesas e a Disputa pelo Brasil

O Inimigo Hereditário: As Invasões Francesas e a Disputa pelo Brasil
Esquadra corsária de René Duguay-Trouin na baía de Guanabara, em Setembro de 1711, durante a Batalha do Rio de Janeiro.Esquadra corsária de René Duguay-Trouin na baía de Guanabara, em Setembro de 1711, durante a Batalha do Rio de Janeiro.

História do Brasil Colonial — Módulo I, Artigo 6 (1.2.2.2)


Em 1494, Portugal e Espanha dividiram o mundo entre si. A França não assinou. Francisco I, rei da França, teria respondido ao Tratado de Tordesilhas com uma frase que o tempo tornou célebre: queria ver a cláusula do testamento de Adão que lhe excluía da partilha do mundo. A anedota pode ser apócrifa — mas o argumento era real, juridicamente articulado e militarmente sustentado por dois séculos de presença francesa no litoral brasileiro.

A questão francesa no Brasil não é episódio menor da história colonial. É um dos temas mais cobrados pelo CACD quando o assunto é o período dos séculos XVI e XVII — e por uma razão precisa que vai além da narrativa de conflitos: as invasões francesas forçaram Portugal a ocupar efetivamente o território que reivindicava apenas de direito. Sem a ameaça francesa, o sistema de capitanias hereditárias provavelmente não teria existido quando existiu, o governo-geral talvez tivesse sido postergado por décadas, e o Rio de Janeiro — capital colonial, imperial e republicana por quatro séculos — jamais teria sido fundado. Entender as invasões francesas é entender por que o Brasil tem a forma que tem.

Há ainda uma dimensão que o CACD cobra de modo crescente nas provas mais recentes: a presença francesa no Brasil produziu uma das mais ricas tradições intelectuais de reflexão sobre o "outro" — sobre o indígena, sobre o canibalismo, sobre a natureza humana — que alimentou diretamente o pensamento filosófico europeu moderno. Jean de Léry e André Thévet são fontes primárias do século XVI que a banca usa como textos de português e de história simultaneamente. Saber quem são, o que escreveram e como se diferenciam é parte do repertório exigido.


I. O contexto europeu: por que a França desafiava Portugal

A rivalidade franco-portuguesa no Atlântico Sul não era gratuita — tinha raízes estruturais no sistema internacional do século XVI que o candidato precisa compreender para não tratar os conflitos como meros episódios de pirataria.

A França era a maior potência demográfica da Europa Ocidental e havia sido excluída pelos tratados ibéricos da partilha colonial. Tordesilhas (1494) e Saragoça (1529) eram acordos bilaterais entre Portugal e Espanha que nunca obtiveram reconhecimento universal das demais potências. A resposta francesa foi a formulação — antes mesmo que Hugo Grotius a sistematizasse juridicamente — da doutrina do mare liberum aplicada seletivamente: os mares eram livres, e nenhum papa ou tratado bilateral poderia conceder a dois reinos o monopólio do oceano. Francisco I declarou que a bula papal de 1493 (Inter Caetera) não o vinculava; ele não havia estado em Roma naquele dia.

Havia também uma dimensão religiosa que o artigo original mencionava mas não desenvolvia suficientemente para os fins do CACD. As guerras de religião que devastaram a França ao longo do século XVI — com o massacre da noite de São Bartolomeu (1572) como ápice — produziram um grupo de reformados, os huguenotes, para quem o Novo Mundo não era apenas oportunidade econômica, mas possibilidade de existência fora do alcance da perseguição católica. A France Antarctique (1555) e a France Équinoxiale (1612) foram, ambas, projetos com componente protestante relevante. Isso adicionava à rivalidade colonial uma dimensão confessional que tornava a ameaça francesa duplamente inaceitável para Lisboa: era desafio territorial e heresia religiosa.

No plano econômico, a presença francesa no Brasil antecedeu em décadas qualquer tentativa de colonização permanente. Comerciantes normandos e bretões — sobretudo de Rouen, Dieppe e Saint-Malo — frequentavam o litoral brasileiro desde os primeiros anos do século XVI, trocando ferramentas de metal, espelhos e quinquilharias com os Tupinambá pelo pau-brasil, a madeira tintorial avermelhada que dava cor aos tecidos europeus e que se tornaria o primeiro ciclo econômico do território. Esse comércio de escambo, informal e pré-colonial, criou algo que a colonização portuguesa precisaria décadas para construir: redes de aliança e confiança com nações indígenas litorâneas.

Os Tamoio do Rio de Janeiro aliaram-se sistematicamente aos franceses. Os Tupinambá da Bahia e do Maranhão fizeram o mesmo. Essa aliança não era ingenuidade indígena — era cálculo estratégico. Os franceses ofereciam reciprocidade comercial sem pretensão de domínio territorial imediato; os portugueses chegavam para ficar, para tomar terras, para escravizar. Do ponto de vista das nações indígenas litorâneas, a diferença era perceptível e a escolha, racional.

Para o CACD — armadilha direta (TPS 2024): A prova afirmou que "a França negociou com Portugal parcerias comerciais para a exploração conjunta da Guanabara e do Maranhão, sem ameaçar a posse das terras brasileiras pelo colonizador luso." O gabarito é ERRADO. A França nunca reconheceu Tordesilhas como válido para si e as ocupações na Guanabara e no Maranhão foram explicitamente hostis à soberania portuguesa.

II. Jean de Léry, André Thévet e o "bom selvagem": quando a história colonial vira filosofia

Esta seção não existia no artigo original — e é precisamente a mais cobrada nas provas recentes. O CACD usou o texto de Sergio Paulo Rouanet sobre o mito do bom selvagem como texto-base de português em 2023 (TPS, Q1), e a prova de 2024 trouxe Lilia Schwarcz discutindo Rousseau e a alteridade. A cadeia intelectual que conecta os cronistas da France Antarctique ao pensamento iluminista é exatamente o tipo de conexão interdisciplinar que a banca valoriza.

Em 1557, chegaram à France Antarctique os primeiros colonos calvinistas enviados por João Calvino de Genebra — entre eles o jovem Jean de Léry, futuro pastor protestante. Léry ficou pouco mais de um ano na Guanabara e, décadas depois, publicou Histoire d'un voyage faict en la terre du Brésil (1578), uma das fontes etnográficas mais ricas sobre os Tupinambá e um dos primeiros textos ocidentais a sistematicamente relativizar os costumes europeus a partir do contato com os povos ameríndios.

O argumento central de Léry era de uma audácia intelectual notável para o século XVI: a antropofagia Tupinambá — o canibalismo ritual dos guerreiros capturados — não era, em essência, mais bárbara do que a usura europeia. Os usurários, escrevia Léry, "sugam o sangue e a medula, e por conseguinte comem vivos as viúvas, os órfãos e outros infelizes" — e são, portanto, mais cruéis que os selvagens. O canibalismo como espelho crítico da civilização europeia: esse era o argumento que Léry construía a partir do Brasil.

Antes de Léry, o franciscano André Thévet havia visitado a France Antarctique em 1555–1556 e publicado Les Singularités de la France Antarctique (1557). Thévet inaugurou a tradição de usar o encontro com os indígenas como instrumento de crítica cultural europeia — ainda que de forma menos sistemática que Léry. A distinção entre os dois é importante: Thévet era franciscano católico; Léry era calvinista. Ambos usaram os Tupinambá como espelho para criticar a Europa, mas por caminhos diferentes e com ênfases distintas.

Michel de Montaigne — filósofo francês dos Ensaios (1580) — leu Léry e incorporou o argumento em seu famoso capítulo "Dos Canibais." Para Montaigne, os Tupinambá revelavam uma nobreza primitiva que a civilização europeia havia corrompido. Não havia, dizia, nada de bárbaro no que faziam os indígenas — exceto pelo fato de que chamamos de bárbaro tudo aquilo que difere de nossos costumes. O pensamento de Montaigne sobre o relativismo cultural é filho direto da France Antarctique e da observação de Léry no Brasil.

A cadeia se completa — mas de modo que o CACD cobra com atenção — em Rousseau e o "bom selvagem". A banca já testou diretamente (TPS 2024, Q3) a assertiva de que Rousseau desenvolveu o conceito de "bom selvagem" a partir da leitura de Léry e Montaigne. A resposta é parcialmente correta mas historiograficamente nuançada: Rousseau não propõe que o indígena ameríndio seja, literalmente, um modelo — propõe que a corrupção social deforma o ser humano que, em estado de natureza, seria bondoso. O "bom selvagem" rousseauniano é categoria filosófica, não etnográfica. Confundir Léry (observação etnográfica direta) com Rousseau (especulação filosófica abstrata) é o erro que a banca constrói.

Para o CACD — armadilha recorrente: A banca frequentemente atribui a Rousseau a paternidade do argumento do "bom selvagem" como resultado da leitura dos cronistas da France Antarctique. O gabarito correto reconhece que: (1) Léry e Thévet fizeram a observação empírica direta; (2) Montaigne sistematizou o argumento relativista a partir deles; (3) Rousseau desenvolveu uma categoria filosófica abstrata — o homem em estado de natureza — que tem parentesco mas não identidade com o que Léry observou. Atribuir a Rousseau a autoria intelectual da valorização do indígena brasileiro é anacronismo e imprecisão historiográfica.

III. A France Antarctique (1555–1567): o Rio de Janeiro como campo de batalha

A primeira grande ocupação francesa no Brasil foi estabelecida na Baía de Guanabara em novembro de 1555, sob o comando do cavaleiro Nicolas Durand de Villegagnon. A escolha do local não era casual: a Guanabara era um dos melhores portos naturais da costa americana, controlável por uma ilha central — onde Villegagnon construiu o forte que batizou de Coligny, em homenagem ao almirante huguenote Gaspard de Coligny, que financiou a expedição.

O projeto era ambicioso: uma colônia permanente, com população civil e apoio régio, que serviria de refúgio para protestantes perseguidos na França e de base para o comércio com os Tupinambá. Em 1557, chegaram os primeiros colonos calvinistas enviados por Calvino — entre eles Jean de Léry — inaugurando a dimensão intelectual da presença francesa que a seção anterior desenvolveu.

A convivência entre Villegagnon e os colonos protestantes que ele mesmo havia convidado foi catastrófica. Villegagnon converteu-se ao catolicismo e passou a perseguir os huguenotes de sua própria colônia — interrogando-os sobre pontos de teologia reformada e ameaçando os que discordavam. O conflito interno enfraqueceu a France Antarctique exatamente quando a pressão portuguesa aumentava. Léry e os demais protestantes acabaram expulsos por Villegagnon antes mesmo da chegada dos portugueses.

A resposta portuguesa veio em dois tempos. Em 1560, o governador-geral Mem de Sá atacou o forte de Coligny com uma frota de dezessete navios, destruiu a estrutura principal e expulsou os franceses da ilha. Os sobreviventes — incluindo Villegagnon, que voltou à França — dispersaram-se para o continente, onde continuaram resistindo com o apoio dos Tamoio.

A cidade do Rio de Janeiro só se tornaria possível após a Guerra dos Tamoios (1562–1567), em que uma aliança luso-jesuítica desfez a confederação indígena francoalinhada. O papel do padre José de Anchieta foi central não apenas como evangelizador mas como negociador político: a paz de Iperoig (1563), que ele ajudou a intermediar, criou condições para o avanço português. A fundação oficial da cidade ocorreu em 1° de março de 1565, quando Estácio de Sá — sobrinho de Mem de Sá — estabeleceu o primeiro núcleo urbano na base do Pão de Açúcar. A expulsão definitiva dos últimos franceses deu-se em 1567, com a morte do próprio Estácio de Sá em combate.

Para o CACD — armadilha recorrente: "Mem de Sá fundou o Rio de Janeiro." ERRADO. Mem de Sá destruiu o forte francês em 1560. Quem fundou a cidade foi Estácio de Sá, sobrinho de Mem de Sá, em 1° de março de 1565. A data e o personagem são cobrados com frequência — e a confusão entre tio e sobrinho é precisamente o erro que a banca induz.

IV. A France Équinoxiale (1612–1615): o Maranhão como segunda aposta

Fracassada a France Antarctique, a França não desistiu. Cinquenta anos depois, um novo projeto colonial instalou-se no extremo norte do território português, aproveitando a fragilidade administrativa da região e as alianças já estabelecidas com os Tupinambá do Maranhão.

Em 1612, uma expedição comandada por Daniel de La Touche, senhor de La Ravardière, chegou ao Maranhão e fundou São Luís — cidade que leva o nome do rei Luís XIII da França e é, até hoje, a única capital de estado brasileiro fundada por não portugueses. O projeto tinha novamente componente religioso relevante: capuchinhos franciscanos franceses acompanharam a expedição com missão de catequese. Entre eles estavam Claude d'Abbeville e Yves d'Evreux, cujas crônicas missionárias são fontes primárias insubstituíveis sobre os Tupinambá do Maranhão — e que seguem a tradição de Thévet e Léry de usar os indígenas como lente para criticar a Europa.

A resposta portuguesa foi mais rápida que no caso da Guanabara. O governador Alexandre de Moura partiu do Recife com uma armada e tomou o forte de São Luís em novembro de 1615, após negociação que resultou na rendição de La Ravardière. A France Équinoxiale durou apenas três anos — fato que a banca cobra como marcador cronológico.

A expulsão não encerrou, porém, a pretensão francesa ao norte do Brasil. Os franceses instalaram-se em Caiena (atual Guiana Francesa) em 1634 e passaram as décadas seguintes disputando a fronteira setentrional com Portugal. O Tratado de Utrecht (1713) reconheceu o rio Oiapoque como fronteira — mas os franceses insistiam que a fronteira era o Araguari, ao sul. A questão só se resolveu definitivamente com o Laudo de Berna de 1900, obtido pelo Barão do Rio Branco em arbitragem suíça, que incorporou o Amapá ao Brasil. Essa sequência — France Équinoxiale → Utrecht → Rio Branco — é o arco narrativo que o CACD cobra quando conecta história colonial e política externa.

Para o CACD: "São Luís foi fundada por portugueses." ERRADO. Fundada pelos franceses em 1612 sob La Ravardière; é a única capital estadual brasileira fundada por não portugueses. "A France Équinoxiale durou décadas." ERRADO. Durou apenas três anos (1612–1615), expulsa por Alexandre de Moura.

V. As consequências estruturais: o que as invasões francesas produziram

Esta é a seção mais importante para o CACD — a que conecta os episódios militares às consequências institucionais que o candidato precisa dominar para responder questões sobre colonização, governo-geral e política indigenista.

A colonização efetiva como imperativo. Tordesilhas garantia a Portugal o direito formal sobre o território — mas o direito internacional da época (e a doutrina que os próprios portugueses sustentavam) reconhecia que a soberania precisava ser exercida efetivamente para ser mantida. Os franceses, ao ocupar a Guanabara em 1555, demonstraram que Portugal não estava exercendo essa soberania no litoral sul. A resposta foi a aceleração da colonização: o sistema de capitanias hereditárias (1532–1534) e, sobretudo, o governo-geral (1549) são, em larga medida, respostas à pressão francesa. Sem ela, a colonização portuguesa poderia ter permanecido no modelo de feitorias esporádicas por muito mais tempo.

Este ponto é cobrado com frequência e de modo sub-reptício: a banca frequentemente situa o governo-geral como "resposta ao fracasso das capitanias" — o que é correto mas incompleto. A ameaça francesa foi condição necessária para a urgência da medida. O artigo sobre colonização desenvolve esse argumento com mais detalhe; aqui o que importa é que a conexão causal invasões francesas → governo-geral esteja clara.

A fundação do Rio de Janeiro. A mais importante cidade do Brasil por quatro séculos só existiu porque era necessário expulsar os franceses da Guanabara e manter a posição estratégica. O Rio de Janeiro nasceu como cidade militar — não como núcleo mercantil ou agrícola. Sua fundação em 1565 é consequência direta da France Antarctique. Sem Villegagnon, sem Estácio de Sá.

A aliança indígena como variável estratégica. As invasões francesas demonstraram, de forma incontornável, que os povos indígenas não eram massa passiva da colonização — eram atores com agência estratégica, capazes de escolher alianças e de inclinar o resultado de conflitos coloniais. A aliança Tamoio-francesa quase impediu a consolidação portuguesa na Guanabara. Essa lição moldou a política indigenista subsequente: os jesuítas tornaram-se instrumentos de pacificação política tanto quanto de evangelização religiosa. Anchieta em Iperoig não era apenas missionário — era diplomata.

O Maranhão como região à parte. A France Équinoxiale e a fragilidade da presença portuguesa no norte reforçaram o caráter periférico do Maranhão em relação ao centro colonial (Bahia e Pernambuco). O isolamento da região — administrada separadamente como Estado do Maranhão e Grão-Pará a partir de 1621, com capital em São Luís e subordinação direta a Lisboa — foi em parte resposta à ameaça francesa. Essa periferia produziria, no século XVIII, a Revolta de Beckman (1684) e, no período pombalino, a Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão (1755) — ambas conectadas diretamente à fragilidade estrutural que a presença francesa havia exposto.

A produção intelectual sobre os indígenas. Como desenvolvido na seção II, a presença francesa no Brasil gerou uma tradição de escrita sobre os Tupinambá — Thévet, Léry, d'Abbeville, d'Evreux — que alimentou o debate europeu sobre o relativismo cultural e o "bom selvagem." Portugal, ao contrário, produziu sobre os indígenas principalmente literatura missionária (jesuítica) com função de controle e conversão, não de observação etnográfica relativista. A diferença de perspectiva entre as tradições francesa e portuguesa sobre os indígenas é cobrada pelo CACD como questão de história intelectual.


VI. Incursões tardias: os franceses no Rio de Janeiro do ouro

A expulsão definitiva da France Équinoxiale em 1615 não eliminou a presença francesa no litoral brasileiro — apenas encerrou as tentativas de colonização permanente. Durante o século XVII e início do XVIII, corsários e piratas franceses atacaram regularmente os portos coloniais, especialmente durante os períodos em que Portugal e França se encontravam em lados opostos dos conflitos europeus.

O episódio mais cobrado pelo CACD nesse contexto tardio é a invasão de Jean-François Duclerc ao Rio de Janeiro em 1710. O contexto é a Guerra de Sucessão Espanhola (1701–1714), em que França e Portugal encontravam-se em campos opostos. Duclerc chegou com uma frota para atacar o Rio de Janeiro — já a principal cidade colonial, enriquecida pelo ouro das Gerais — e foi repelido pelas ordenanças locais: milícias civis sem instrução militar formal, compostas por moradores da cidade. Duclerc foi capturado e morreu assassinado no cativeiro em 1711, antes de ser resgatado.

Seu sucessor, René Duguay-Trouin, retornou em setembro de 1711 com frota muito maior — doze navios de guerra — desta vez tomou a cidade, exigiu resgate em ouro, açúcar e gado, e retirou-se. O episódio revelou a vulnerabilidade militar do Rio de Janeiro e acelerou os investimentos portugueses na defesa da cidade — incluindo a construção de novas fortalezas e o reforço das guarnições.

A questão de prova que cobrou esse episódio (TPS 2023) é direta e o ponto crítico precisa ser memorizado: foram as ordenanças — milícias civis locais sem instrução militar formal — que expulsaram Duclerc. Não forças regulares portuguesas. Quem tomou a cidade foi Duguay-Trouin, em ação de represália. A confusão entre os dois episódios e os dois personagens é precisamente o que a banca induz.

Esse episódio ilustra também um argumento estrutural que o Manual do Candidato enfatiza: a dependência da Coroa das elites coloniais armadas para a defesa do território. O Rio de Janeiro era uma das principais cidades do Império português e não tinha guarnição regular suficiente para se defender de um ataque externo. Foram os moradores — as ordenanças — que seguraram a cidade. Esse dado alimenta diretamente o argumento de Oliveira Viana sobre a descentralização do poder colonial e a força das elites locais.

Para o CACD — distinção obrigatória:Duclerc (1710): tentou tomar o Rio; foi repelido pelas ordenanças locais; capturado; morreu no cativeiro.Duguay-Trouin (1711): retornou em represália; tomou a cidade; exigiu resgate; retirou-se. Inverter os dois episódios — atribuindo a Duclerc a tomada da cidade — é o erro clássico que a banca constrói.

VII. As invasões francesas na chave da política externa: Amapá, Utrecht e Rio Branco

Para o candidato à carreira diplomática, as invasões francesas têm uma dimensão adicional que transcende a história interna e conecta colonização, política externa e diplomacia territorial.

O Tratado de Tordesilhas foi, na prática, um acordo bilateral que nunca obteve reconhecimento universal. A França, a Inglaterra e os Países Baixos nunca o aceitaram como válido para si — e construíram presença nas Américas ignorando seus limites. O Brasil que Portugal legou ao mundo moderno foi, portanto, moldado pela competição entre potências europeias tanto quanto pelas escolhas portuguesas.

A fronteira norte do Brasil — com a Guiana Francesa — é, até hoje, herança direta da presença colonial francesa. O processo de consolidação dessa fronteira passou por várias etapas que o CACD cobra em conexão com os módulos de política externa:

O Tratado de Utrecht (1713) reconheceu o rio Oiapoque como fronteira setentrional — mas os franceses continuaram insistindo que a fronteira correta era o Araguari, ao sul, o que deixaria boa parte do atual Amapá em território francês. O impasse persistiu por quase dois séculos.

Em 1895, com a descoberta de ouro na região do Amapá, o conflito recrudesceu. Em 1897, Brasil e França acordaram submeter a questão a arbitragem internacional, confiada ao presidente da Confederação Helvética. O Laudo de Berna, proferido em 1900, foi uma das maiores vitórias diplomáticas do Barão do Rio Branco — ainda antes de sua nomeação como chanceler. O laudo reconheceu os limites mais favoráveis ao Brasil (o Oiapoque como fronteira, conforme Utrecht), incorporando definitivamente o território do atual estado do Amapá.

Esse arco — France Équinoxiale (1612) → Utrecht (1713) → Laudo de Berna (1900) — é o tipo de sequência de longa duração que o CACD valoriza: uma questão de fronteira aberta pela colonização francesa no século XVII que só se resolve com a diplomacia rio-branquiana no início do século XX.


Síntese para a prova

Conceito Interpretação correta Armadilha frequente
Tordesilhas e a França França nunca reconheceu; base jurídica do conflito "França negociou acordos comerciais com Portugal sobre o Brasil" — ERRADO
France Antarctique Componente huguenote central; Villegagnon convidou calvinistas de Genebra "France Antarctique foi projeto exclusivamente militar" — ERRADO
Villegagnon Converteu-se ao catolicismo e perseguiu os próprios huguenotes que convidou "Villegagnon foi herói protestante" — IMPRECISO
Léry vs. Rousseau Léry: observação etnográfica direta (1578); Rousseau: categoria filosófica abstrata (1755) "Rousseau desenvolveu o bom selvagem a partir de Léry" — PARCIALMENTE CORRETO, mas distinção é cobrada
Fundação do Rio de Janeiro Estácio de Sá, 1° de março de 1565 "Mem de Sá fundou o Rio de Janeiro" — ERRADO
São Luís Fundada pelos franceses em 1612; única capital estadual brasileira fundada por não portugueses "São Luís foi fundada por portugueses" — ERRADO
France Équinoxiale Durou apenas 3 anos (1612–1615); expulsa por Alexandre de Moura "France Équinoxiale durou décadas" — ERRADO
Duclerc vs. Duguay-Trouin Duclerc (1710): repelido pelas ordenanças; Duguay-Trouin (1711): tomou a cidade e exigiu resgate Atribuir a tomada da cidade a Duclerc — ERRADO
Consequência institucional Invasões francesas → urgência do governo-geral (1549) e fundação do Rio (1565) "Governo-geral foi só resposta ao fracasso das capitanias" — INCOMPLETO
Fronteira norte Laudo de Berna (1900), Rio Branco, reconheceu rio Oiapoque conforme Utrecht (1713) Atribuir fronteira norte ao período colonial sem mencionar processo diplomático posterior — INCOMPLETO

Este artigo integra o módulo de História do Brasil Colonial do Acervo CACD. O próximo texto aborda a União Ibérica (1580–1640) e suas consequências para a política colonial e para a inserção de Portugal no sistema internacional.


Referências de aprofundamento

  • LÉRY, Jean de. Viagem à Terra do Brasil. (trad. brasileira, Edusp)
  • THÉVET, André. Les Singularités de la France Antarctique (1557)
  • ROUANET, Sergio Paulo. "O mito do bom selvagem." Artepensamento, IMS, 1999
  • SCHWARCZ, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças. São Paulo: Companhia das Letras, 2004
  • HEMMING, John. Ouro Vermelho: a conquista dos índios brasileiros. Cap. 6–7
  • FAUSTO, Boris. História do Brasil. Cap. 2
  • GOES FILHO, Synésio Sampaio. Navegantes, Bandeirantes, Diplomatas. FUNAG/IRBr, 1999 (Cap. sobre fronteiras do norte)
  • ALMEIDA, João Daniel Lima de. Manual do Candidato — História do Brasil. FUNAG, 2013, Cap. 1.8