O Rei de Dois Mundos: A União Ibérica e Suas Consequências para o Brasil (1580–1640)
Em 4 de agosto de 1578, o rei Dom Sebastião de Portugal morreu na batalha de Alcácer Quibir, no norte da África, sem deixar herdeiros. O reino passou a seu tio idoso, o cardeal Dom Henrique, que morreu dois anos depois também sem descendência. A crise dinástica que se seguiu não era apenas um problema de sucessão — era a oportunidade que Filipe II da Espanha aguardava para concretizar um projeto que seus predecessores já sonhavam desde os casamentos habsburgos do século anterior.
Em 1580, após breve resistência do pretendente Dom Antônio, Prior do Crato, a força militar espanhola impôs a solução dinástica: Filipe II tornou-se também Filipe I de Portugal, unindo sob uma mesma Coroa os dois maiores impérios coloniais do mundo. A União Ibérica duraria sessenta anos — e deixaria marcas permanentes na configuração territorial, institucional e geopolítica do Brasil. Mas a história que o CACD quer que o candidato compreenda não termina em 1640. Termina em 1703, com o Tratado de Methuen, quando a trajetória iniciada pela Restauração portuguesa finalmente revela sua lógica mais profunda: a subordinação progressiva de Portugal — e, através dele, do Brasil — ao projeto econômico britânico.
I. As causas da União: por que Portugal aceitou
A União Ibérica não foi apenas conquista militar — foi também resultado de uma convergência de interesses que o CACD cobra com frequência, exigindo distinguir entre causas estruturais e o gatilho dinástico imediato.
Os laços de sangue entre as Casas de Avis e Habsburgo eram estreitos e legítimos: Dom Manuel I havia se casado com filhas de Fernando e Isabel; Dom Sebastião era bisneto de Carlos V. Filipe II tinha, portanto, legitimidade dinástica genuína — e a nobreza portuguesa, com laços familiares, interesses econômicos e conexões culturais com a nobreza castelhana, apoiou sua aclamação. A nobreza queria prestígio e acesso às cortes europeias; a União oferecia ambos.
A burguesia mercantil portuguesa também via vantagens: o acesso ao imenso mercado colonial espanhol — especialmente à prata do Peru via Buenos Aires — era perspectiva economicamente atraente num momento em que o Império do Oriente português estava sendo progressivamente corroído pela concorrência holandesa e inglesa. O comércio com a Índia havia sustentado Portugal por quase um século, mas o modelo estava em colapso. Ataques holandeses às rotas do Índico, custos crescentes de manutenção das fortalezas orientais e a quebra do monopólio das especiarias tornavam a reconversão para o Atlântico uma necessidade estrutural. A aliança com Castela parecia oferecer compensação.
Havia, é claro, resistência. A pequena burguesia urbana, setores ligados aos cristãos-novos (que temiam a extensão da Inquisição espanhola, historicamente mais rigorosa que a portuguesa) e alguns grupos populares apoiaram Dom Antônio. Mas a força das armas — e os termos relativamente favoráveis negociados nas Cortes de Tomar em 1581 — impuseram a solução habsburga.
Para o CACD — armadilha direta: A prova já afirmou que a União Ibérica "amenizou as disputas entre portugueses e espanhóis na ocupação da América do Sul." O gabarito é ERRADO. Na prática, as tensões territoriais se intensificaram, especialmente no rio da Prata e na Amazônia, onde colonos das duas coroas competiam pelo mesmo espaço. A União Ibérica não eliminava a rivalidade entre os impérios — suspendia apenas a divisão de Tordesilhas, sem resolver o problema de fundo.
II. As Cortes de Tomar: o que foi prometido e o que foi cumprido
As Cortes de Tomar (1581) estabeleceram as condições sob as quais Portugal aceitava Filipe I como rei: os dois reinos permaneceriam separados administrativamente, com legislação, moeda, língua e administração colonial próprias. Portugal manteria seu Conselho de Estado, seus vice-reis lusos, sua nobreza e seus cargos. O Brasil seria administrado separadamente da América espanhola. Os impostos portugueses seriam destinados exclusivamente à defesa do Império português. Os portugueses não seriam recrutados para guerras espanholas sem consentimento das Cortes.
É importante distinguir os três reinados filipinos por seu grau de observância desses compromissos — distinção que a prova cobra em questões de verdadeiro/falso sobre o período:
Filipe I (1580–1598) e Filipe II (1598–1621) respeitaram relativamente bem os termos de Tomar. A administração colonial portuguesa manteve sua autonomia; os cargos continuaram sendo preenchidos por portugueses; e o exclusivo colonial foi preservado. A União, nesse primeiro período, funcionou aproximadamente como um arranjo de dupla coroa sem fusão institucional.
Filipe III (1621–1640) — IV da Espanha — representou a ruptura progressiva. Sua política de olivarismo (sob a influência do Conde-Duque de Olivares) buscava fundir as monarquias ibéricas num Estado mais centralizado, redistribuindo o custo das guerras europeias entre todos os reinos. Portugal foi progressivamente tratado como fonte de recursos para os conflitos espanhóis — tropas convocadas, impostos aumentados, cargos entregues a castelhanos. Essa crescente subordinação alimentou o ressentimento que culminaria na Restauração de 1640.
A trajetória dos três reinados tem implicação analítica precisa: a União Ibérica não foi um evento único, mas um processo com fases distintas. Tratar todo o período de 1580 a 1640 como homogêneo é a simplificação que a banca identifica e penaliza.
III. As consequências para o Brasil: território, instituições e comércio atlântico
A União Ibérica produziu três consequências estruturais para o Brasil:
Primeiro: o fim prático de Tordesilhas. Com as duas coroas unidas, a linha imaginária de 1494 deixou de ter efetividade operacional. Bandeirantes paulistas penetraram pelo interior muito além do meridiano — em busca de índios para escravizar, metais preciosos e território. A fundação de Belém em 1616 e a progressiva ocupação da Amazônia consolidaram uma presença portuguesa em terras que eram, pelo tratado, espanholas. A criação do Estado do Maranhão e Grão-Pará (1621), administrativamente separado do Estado do Brasil e diretamente subordinado a Lisboa, refletia tanto a preocupação com a segurança do norte quanto o reconhecimento de que a Amazônia era, de fato, um espaço português.
Quando Portugal restaurou sua independência em 1640 e negociou novos limites, o princípio do uti possidetis — a posse efetiva como fundamento do direito territorial, independentemente de tratados anteriores — já havia substituído na prática as linhas de papel. O Tratado de Madri de 1750 apenas formalizaria o que as bandeiras haviam construído. O Brasil dever seu tamanho continental, em grande medida, à suspensão de Tordesilhas durante os sessenta anos de União.
Segundo: as reformas institucionais filipinas. As Ordenações Filipinas (1603) sistematizaram o corpo legislativo português num código que vigoraria no Brasil até o Código Civil de 1916 — atravessando a colônia, o Império e os primeiros vinte e seis anos da República. Uma longevidade de mais de três séculos que revela a profundidade da marca filipina na tradição jurídica brasileira. Aspectos do direito de família, sucessão e propriedade que moldaram a sociedade brasileira têm origem nesse código. Quando o CACD pergunta sobre "a influência institucional duradoura da União Ibérica", as Ordenações Filipinas são a resposta mais direta.
Terceiro: a integração no circuito atlântico espanhol. A integração ibérica permitiu aos comerciantes portugueses operar legalmente nos portos espanhóis da América — especialmente Buenos Aires, porta de entrada para a prata do Potosí. Luiz Felipe de Alencastro, em O Trato dos Viventes (2000), construiu a análise mais sofisticada desse circuito: o Brasil colonial não deve ser compreendido como uma economia isolada, mas como um nó de um sistema atlântico que conectava três continentes. A prata peruana chegava a Buenos Aires; escravizados africanos partiam de Angola e da Costa da Mina; tabaco baiano circulava como moeda de troca no tráfico negreiro; açúcar nordestino era refinado em Amsterdã. A União Ibérica momentaneamente integrou o lado português desse sistema com o espanhol, criando uma economia atlântica ainda mais ampla.
Para o CACD — Alencastro como referência: O Trato dos Viventes é obra de referência obrigatória para questões sobre o tráfico negreiro, o Atlântico Sul como unidade econômica e a conexão entre Angola e o Nordeste açucareiro. A banca usa o conceito de "Atlântico Sul" como unidade analítica — em oposição à visão de Brasil como economia autocontida. A assertiva "o Brasil colonial era uma economia voltada exclusivamente para seus mercados internos" é, à luz de Alencastro, ERRADA de forma particularmente evidente.
IV. A ruptura holandesa: da parceria ao conflito armado
O aspecto mais cobrado pelo CACD em relação à União Ibérica é sua consequência geopolítica mais dramática: o conflito com as Províncias Unidas dos Países Baixos e a invasão do Nordeste brasileiro.
Até 1580, os holandeses eram parceiros comerciais indispensáveis de Portugal. Refinavam o açúcar brasileiro em Amsterdã e Antuérpia, financiavam engenhos com capital adiantado, distribuíam o produto nos mercados europeus do norte. Conheciam o Nordeste melhor do que qualquer outro europeu não ibérico — tinham mapas detalhados, redes de contato estabelecidas e agentes nos portos coloniais. Esse conhecimento, acumulado durante décadas de parceria pacífica, tornaria a invasão subsequente muito mais eficaz do que teria sido sem ele.
A União Ibérica transformou esse parceiro em inimigo. Portugal foi arrastado para o conflito hispano-holandês — a guerra de independência das Províncias Unidas contra a Espanha, que durava desde 1568. Os portos portugueses foram fechados aos holandeses; o circuito açucareiro foi interrompido. A resposta holandesa foi organizada: em 1621, fundou-se a Companhia das Índias Ocidentais (WIC, West-Indische Compagnie), empresa capitalista de caráter misto — privada nos lucros, estatal na estratégia — criada especificamente para atacar o Império ibérico no Atlântico.
A sequência das invasões:
- 1624–1625: Tomada e perda da Bahia. Os holandeses ocuparam Salvador por cerca de um ano; uma armada luso-espanhola de 52 navios os expulsou em 1625. A operação demonstrou que a Coroa ibérica podia mobilizar recursos defensivos expressivos — mas também que o litoral brasileiro era vulnerável.
- 1630: Tomada de Olinda e Recife. Desta vez permanente. Os holandeses expandiram seu domínio até controlar toda a faixa litorânea do Nordeste, do Maranhão ao Rio São Francisco.
- 1637–1644: O governo de João Maurício de Nassau. Transformou Recife numa capital colonial sofisticada — obras públicas, jardins botânicos, tolerância religiosa relativa, convivência entre católicos, protestantes e judeus sefarditas. A missão cultural que Nassau patrocinou — Frans Post pintando paisagens, Georg Marcgraf e Willem Piso documentando a fauna, a flora e a medicina indígena — produziu o primeiro corpus científico sistemático sobre o Brasil.
- 1645–1654: A Insurreição Pernambucana. Após a saída de Nassau — considerado caro demais pela WIC, que preferia lucros à política de integração —, os senhores de engenho luso-brasileiros, endividados com a WIC e insatisfeitos com o domínio protestante, iniciaram a resistência. As batalhas dos Guararapes (1648 e 1649) foram militarmente decisivas. A historiografia do século XIX as transformou em símbolo de identidade nacional — portugueses, indígenas e africanos combatendo juntos — mas a historiografia contemporânea relativiza esse mito: tratava-se de uma coalizão de interesses distintos, não de um projeto nacional articulado.
- 1654: Capitulação holandesa e retomada definitiva de Recife.
A reconquista do Brasil holandês não se completou sem a retomada de Angola. Os holandeses haviam capturado Luanda em 1641 — cortando o abastecimento de escravizados para o Nordeste açucareiro. Salvador Correia de Sá e Benevides, financiado pela elite colonial do Rio de Janeiro, liderou a expedição que reconquistou Angola em 1648: iniciativa colonial, sem apoio regular da Coroa, que demonstra a autonomia militar das elites locais e — seguindo Alencastro — a indissociabilidade entre o Nordeste e Angola como dois polos de um mesmo sistema produtivo atlântico.
V. A Restauração de 1640 e o reordenamento diplomático
A ruptura definitiva com os Habsburgo foi precipitada pelo olivarismo de Filipe III: convocação de tropas portuguesas para a guerra da Catalunha, impostos crescentes, quebra sistemática dos compromissos de Tomar. Em dezembro de 1640, a nobreza portuguesa aclamou o duque de Bragança como Dom João IV, inaugurando a dinastia que governaria Portugal até a República em 1910.
Para o Brasil, a Restauração teve consequências diplomáticas imediatas e de longa duração. Portugal, militarmente frágil e precisando de aliados contra a Espanha, negociou a paz com a Holanda — reconhecendo provisoriamente a ocupação holandesa do Nordeste em troca de neutralidade. Somente quando a Holanda foi enfraquecida pela guerra com a Inglaterra (as Guerras Anglo-Holandesas da década de 1650) é que Portugal pôde exigir a evacuação sem pagar indenização integral.
O custo diplomático foi alto: pelo Tratado de Haia de 1661, Portugal pagou indenização substancial à Holanda, cedeu Cochim e parte de Ceilão no Oriente, e garantiu privilégios comerciais holandeses. O Brasil foi salvo, mas o Oriente português sofreu perdas irreversíveis que sellaram o fim do ciclo asiático.
A Restauração também exigiu uma solução para o problema de segurança permanente de Portugal: como um reino pequeno e militarmente frágil poderia manter sua independência contra a Espanha, potência continental, e ao mesmo tempo defender um vasto Império colonial distribuído por três oceanos? A resposta foi uma aliança com a única potência capaz de oferecer proteção naval — a Inglaterra.
VI. O arco diplomático pós-1640: de Westminster a Methuen
Esta é a seção que conecta a União Ibérica à política externa de longa duração — e que o CACD cobra tanto no módulo de História do Brasil quanto no de Política Externa Brasileira.
O Tratado de Westminster (1654) foi o primeiro marco formal da aliança luso-britânica pós-Restauração. Celebrado entre Cromwell e Dom João IV, o tratado garantia proteção naval inglesa aos navios e posses portugueses em troca de privilégios comerciais para os mercadores britânicos nos portos portugueses e coloniais. Era uma aliança assimétrica desde o início: Portugal oferecia acesso a mercados; a Inglaterra oferecia segurança. Mas para o frágil reino dos Bragança, a assimetria era um preço aceitável.
O tratado abriu também o caminho para a resolução do problema holandês. Foram as guerras anglo-holandesas da década de 1650 que enfraqueceram as Províncias Unidas a ponto de tornar viável a exigência portuguesa de evacuar o Nordeste. Portugal dependia da Inglaterra não apenas para se proteger da Espanha, mas para neutralizar rivais coloniais que a própria aliança espanhola durante a União Ibérica havia criado.
Entre Westminster e o próximo marco diplomático — o Tratado de Methuen (1703) — decorrem quase cinquenta anos de consolidação progressiva da dependência. Portugal e Inglaterra tornaram-se aliados militares na Guerra de Sucessão Espanhola (1702–1713), em que a morte de Carlos II da Espanha sem herdeiros gerou um conflito por toda a Europa sobre qual dinastia assumiria o trono de Madri. Portugal entrou ao lado da Inglaterra e da Áustria contra a França e os Bourbon espanhóis — uma escolha que revelava sua lógica estrutural: Portugal precisava de um padrinho forte contra a Espanha, e a Inglaterra era a única opção disponível.
O Tratado de Methuen (1703), assinado no contexto da aliança de guerra, é o ponto de chegada do arco diplomático iniciado em 1640. Seu conteúdo formal é simples — Portugal reduzia as tarifas sobre tecidos ingleses; a Inglaterra reduzia as tarifas sobre vinhos portugueses —, mas suas consequências econômicas foram profundas e duradouras.
O tratado criou uma estrutura de especialização comercial assimétrica. Portugal se comprometia a importar tecidos industrializados ingleses, renunciando ao desenvolvimento de sua própria indústria têxtil. A Inglaterra absorvia vinhos portugueses, mas em volumes que nunca compensariam o desequilíbrio da troca. O resultado foi que o ouro que chegava do Brasil — especialmente após as descobertas das Minas Gerais em 1693–1695 — escorria rapidamente para a Inglaterra em troca de manufaturas. Como observa o Manual do Candidato: "Apesar dos esforços modernizadores do Marquês de Pombal, Portugal não havia conseguido viabilizar sua independência efetiva em relação aos ingleses, fazendo do Brasil uma espécie de 'colônia da colônia'."
Para o CACD — armadilha clássica: A banca frequentemente afirma que o Tratado de Methuen foi favorável a Portugal por garantir mercado para seu vinho. O gabarito correto depende do enquadramento: formalmente o tratado era bilateral e recíproco; economicamente, ele cristalizou a desindustrialização de Portugal e drenou o ouro colonial para a Inglaterra. A historiografia — e o Manual do Candidato — são categóricos: Methuen aprofundou a dependência portuguesa, não a reduziu.
A aliança com a Inglaterra também pagou dividendos territoriais para o Brasil. Nas negociações do Tratado de Utrecht (1713) que encerrou a Guerra de Sucessão Espanhola, a França — sob pressão britânica — aceitou o Oiapoque como fronteira entre a Guiana Francesa e a Amazônia portuguesa. Como nota o Manual do Candidato: "Tal desfecho certamente não se teria logrado se Álbion não estivesse ao lado de Portugal." Em 1715, Utrecht devolveu a Colônia do Sacramento a Portugal. Em 1763, o Tratado de Paris — encerrando a Guerra dos Sete Anos, novamente favorável à coalizão anglo-portuguesa — devolveria Sacramento pela terceira vez. O padrão se repete: a aliança inglesa rendia resultados territoriais que o poder militar português sozinho nunca conseguiria.
VII. O legado estrutural: o que a União Ibérica produziu de permanente
Sessenta anos de União Ibérica e as décadas de reordenamento diplomático subsequente produziram um legado que estrutura o Brasil contemporâneo de formas que o CACD explora consistentemente.
Territorial: A expansão bandeirante para além de Tordesilhas durante a União — legitimada depois pelo uti possidetis e formalizada no Tratado de Madri (1750) — é a principal razão pela qual o Brasil é o maior país da América do Sul. Sem a União Ibérica e a suspensão prática de Tordesilhas, o mapa seria radicalmente diferente. O Brasil de tamanho continental é, em última análise, um produto da geopolítica filipina.
Jurídico: As Ordenações Filipinas de 1603 vigoraram no Brasil até 1916. Aspectos do direito de família, sucessão e propriedade que moldaram a sociedade brasileira por séculos têm origem nesse código. Quando o candidato encontra a afirmação "a influência institucional filipina limitou-se ao período de 1580 a 1640", o gabarito correto é ERRADO.
Econômico — o eixo atlântico sul: A integração com o circuito da prata espanhola via Buenos Aires criou uma orientação econômica sul-atlântica que marcaria toda a história do Brasil colonial e imperial. O interesse brasileiro no Prata — que culminaria na Guerra do Paraguai (1864–1870) — tem raízes nesse período. Luiz Felipe de Alencastro demonstrou que o Brasil colonial só é compreensível como nó de um sistema atlântico: o Nordeste açucareiro dependia de Angola para o abastecimento de mão de obra; a reconquista de Angola em 1648 foi financiada pelo Rio de Janeiro; o tabaco baiano circulava como moeda na Costa da Mina. A União Ibérica intensificou essa integração ao conectar temporariamente o sistema português ao espanhol.
Diplomático — a aliança inglesa como estrutura de longa duração: O arco Westminster (1654) → Methuen (1703) estabeleceu a dependência de Portugal em relação à Inglaterra como traço estrutural que duraria até o século XIX. Quando Dom João VI abriu os portos em 1808, os tratados de 1810 com a Inglaterra que se seguiram eram, em larga medida, a continuação da lógica de Methuen — acesso ao mercado brasileiro em troca de proteção naval e reconhecimento diplomático. Cervo e Bueno, em História da Política Exterior do Brasil, identificam nesses tratados de 1810 a origem do que chamam de "enquadramento Brasil-Inglaterra": a subordinação sistemática dos interesses comerciais brasileiros aos britânicos, que só começaria a ser revertida na segunda metade do século XIX. Essa trajetória começa em 1580, quando a União Ibérica forçou Portugal a buscar um aliado alternativo à Espanha — e encontrou a Inglaterra.
Identitário: A resistência à ocupação holandesa gerou uma das primeiras narrativas de identidade coletiva luso-brasileira — a ideia de que havia algo específico a defender no Brasil, distinto da metrópole europeia. A memória dos Guararapes foi instrumentalizada pelo nacionalismo do século XIX como símbolo de unidade nacional. A historiografia contemporânea — especialmente Evaldo Cabral de Mello em Rubro Veio — relativiza essa narrativa ao mostrar que o que se criou foi sobretudo um nativismo pernambucano específico, não uma identidade brasileira geral. Mas o fenômeno real — elites coloniais mobilizando recursos próprios para defender seu território, sem apoio consistente da Coroa — foi estruturalmente significativo e prefigurou a autonomia que a independência formalizaria.
VIII. Síntese: a dupla subordinação colonial
O argumento central que a União Ibérica permite construir — e que o CACD cobra de múltiplas formas — é o da dupla subordinação do Brasil colonial: subordinado a Portugal pelo exclusivo de comércio; e Portugal, por sua vez, progressivamente subordinado à Inglaterra pela aliança assimétrica que a fragilidade pós-Restauração tornava necessária. O resultado é que o excedente produzido pelo trabalho escravizado nos engenhos nordestinos e, depois, nas minas gerais percorria um caminho de dois saltos antes de chegar à sua destinação final: do Brasil para Lisboa, de Lisboa para Londres. É isso que o Manual do Candidato sintetiza na expressão "colônia da colônia" — e é isso que Pombal tentaria, com sucesso parcial, reverter no século XVIII.
Síntese para a prova
| Conceito | Interpretação correta | Armadilha frequente |
|---|---|---|
| Causas da União (1580) | Laços dinásticos + convergência da nobreza e burguesia mercantil + crise do Oriente | "Portugal aceitou exclusivamente por conquista militar" — ERRADO |
| Cortes de Tomar (1581) | Promessa de separação administrativa, legislação própria, cargos lusos | "Os três filipes respeitaram igualmente os termos" — ERRADO (Filipe III violou progressivamente) |
| União amenizou tensões luso-espanholas | ERRADO. Tensões no Prata e na Amazônia se intensificaram | Afirmativa direta na prova; gabarito ERRADO |
| Tordesilhas durante a União | Perdeu efetividade operacional; bandeirantes expandiram além do meridiano | "Tordesilhas continuou sendo respeitada durante a União" — ERRADO |
| Ordenações Filipinas (1603) | Vigoraram no Brasil até 1916; maior legado institucional da União | "Influência filipina limitou-se ao período 1580–1640" — ERRADO |
| Estado do Maranhão e Grão-Pará (1621) | Separado do Estado do Brasil; subordinado diretamente a Lisboa | Confundir com Estado do Brasil — ERRO DE DISTINÇÃO |
| WIC (1621) | Criada especificamente para atacar o Império ibérico; resposta ao fechamento dos portos | "A WIC já existia antes da União Ibérica" — ERRADO |
| Nassau (1637–1644) | Tolerância religiosa; produção científica; saída por pressão da WIC por custos | "Nassau foi expulso militarmente pelos luso-brasileiros" — INCOMPLETO |
| Reconquista de Angola (1648) | Iniciativa colonial do Rio de Janeiro; Angola = base do tráfico para o Nordeste | "A reconquista foi operação regular da Coroa portuguesa" — ERRADO |
| Tratado de Haia (1661) | Portugal indenizou holandeses e cedeu possessões orientais para recuperar o Nordeste | "Os holandeses foram expulsos sem custos diplomáticos" — ERRADO |
| Westminster (1654) | Primeiro marco formal da aliança luso-britânica pós-Restauração; proteção naval por privilégios comerciais | Confundir com Methuen — ERRO DE DISTINÇÃO |
| Methuen (1703) | Tecidos ingleses por vinho português; desindustrialização de Portugal; ouro colonial → Inglaterra | "Methuen foi favorável a Portugal por garantir mercado para o vinho" — INCOMPLETO/ENGANOSO |
| Utrecht (1713) | Aliança inglesa → França aceita Oiapoque; Sacramento devolvido em 1715 | "Os ganhos territoriais de Utrecht resultaram do poder militar português" — ERRADO |
| "Colônia da colônia" | Brasil subordinado a Portugal; Portugal subordinado à Inglaterra; excedente colonial → Londres | Tratar a subordinação como apenas bilateral (Brasil-Portugal) — INCOMPLETO |
| Alencastro, O Trato dos Viventes | Brasil colonial como nó de sistema atlântico Sul; Angola e Nordeste indissociáveis | "O Brasil colonial era economia autônoma e autocontida" — ERRADO |
Este artigo integra o módulo de História do Brasil Colonial do Acervo CACD. O próximo texto aborda as invasões holandesas em detalhe: Nassau, a WIC e a insurreição pernambucana.
Referências de aprofundamento
- ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O Trato dos Viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul. Caps. 3–6
- MELLO, Evaldo Cabral de. O negócio do Brasil: Portugal, os Países Baixos e o Nordeste (1641–1669)
- MELLO, Evaldo Cabral de. Rubro Veio: o imaginário da restauração pernambucana
- CERVO, Amado Luiz; BUENO, Clodoaldo. História da Política Exterior do Brasil. Cap. 1 ("O enquadramento Brasil-Inglaterra")
- ALMEIDA, João Daniel Lima de. Manual do Candidato — História do Brasil. FUNAG, 2013, Cap. 1.6
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. Cap. 2
- SCHWARTZ, Stuart. Segredos Internos. Cap. 7