Os Filhos do Sertão: Bandeirismo, Expansão Territorial e a Conquista do Interior (Séculos XVII–XVIII)
Em 1629, uma expedição partiu de São Paulo de Piratininga em direção às missões jesuíticas do Guairá. Comandada por Manuel Preto e Antônio Raposo Tavares, era composta por aproximadamente 3 mil homens — dos quais apenas 69 eram brancos, 900 mamelucos e 2 mil indígenas. Destruiu as reduções, escravizou milhares de guaranis e retornou com uma coluna humana que os contemporâneos estimaram em mais de 30 mil cativos. Foi uma das maiores operações de apresamento da história colonial americana.
Esse episódio resume, em sua brutalidade, os traços essenciais do bandeirismo: a escala, a composição heterogênea, o conflito com os jesuítas, a dependência da mão de obra indígena — e a profunda contradição entre o mito do "desbravador heroico" e a realidade do caçador de gente. Mas o bandeirismo foi também, involuntariamente, o instrumento que construiu o mapa do Brasil. E o Estado pombalino do século XVIII soube usar esse legado territorial de forma deliberada — fundando cidades nas fronteiras que os bandeirantes haviam desbravado, formalizando juridicamente a posse que eles haviam estabelecido na prática, e substituindo as missões jesuíticas que haviam destruído por um regime de tutela secular que perpetuava, com outras formas, a subordinação indígena ao projeto colonial.
I. São Paulo: a pobreza como origem
O bandeirismo não nasceu da prosperidade — nasceu da ausência dela. São Paulo de Piratininga, fundada em 1554 pelos jesuítas Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, era uma vila economicamente marginal no contexto colonial. Solos menos férteis, distância dos grandes portos atlânticos e o obstáculo geográfico da descida íngreme da Serra do Mar isolavam a capitania de São Vicente dos circuitos mercantis que enriqueciam o Nordeste açucareiro.
Dos 400 inventários examinados pelo historiador Alcântara Machado, apenas 20 indicavam alguma prosperidade. A sociedade paulista vivia de lavouras de subsistência, escambo com indígenas e criação de gado. Os bandeirantes eram em larga maioria analfabetos, vestiam gibões de couro e chapelões de palha, e falavam o tupi como língua franca — herança da intensa mestiçagem com povos da terra.
Para o CACD — armadilha direta (TPS 2005 e 2011): A banca já considerou ERRADA a afirmação de que São Paulo apresentava "elevado dinamismo econômico" e que as bandeiras consolidaram São Paulo como "importante polo econômico no período colonial." A interpretação correta é a inversa: as bandeiras foram alternativa econômica à pobreza, não expressão de prosperidade. O bandeirismo nasceu da miséria, não da riqueza.
A sociedade paulista tinha, contudo, uma característica decisiva: a relativa independência política. O isolamento geográfico alimentava um sentimento de autossuficiência que se materializou no episódio da aclamação de Amador Bueno em 1641 — quando paulistas tentaram proclamar o comerciante Amador Bueno rei de São Paulo, em recusa à Restauração portuguesa. O próprio Amador Bueno recusou, mas o episódio revelou o grau de autonomia que a vila atribuía a si mesma — e que o artigo sobre os levantes coloniais analisa em perspectiva mais ampla.
II. A força motriz: escravidão indígena
A grande força motriz das bandeiras era a escravidão indígena — prática imposta pela escassez de mão de obra africana numa capitania pobre demais para arcar com os custos do tráfico atlântico. No Nordeste açucareiro, o trabalho escravizado era majoritariamente africano; em São Paulo, era majoritariamente indígena.
A demanda por cativos indígenas se intensificou entre 1625 e 1654, durante a ocupação holandesa do Nordeste. Com os holandeses controlando Angola e interrompendo parcialmente o tráfico atlântico, engenhos do Rio de Janeiro e do Sul recorreram ao mercado paulista de indígenas escravizados. Os cativos obtidos pelas bandeiras eram vendidos em São Vicente e no Rio de Janeiro, alimentando inclusive os engenhos de ordens religiosas, onde indígenas chegaram a representar parcela significativa da força de trabalho.
O historiador John Manuel Monteiro — referência fundamental para o CACD nesse tema — demonstrou em Negros da Terra (1994) que o apresamento não visava exclusivamente a economia açucareira do Nordeste: no contexto paulista, indígenas sustentavam também a agricultura local e o transporte de excedentes. A economia paulista era, no fundo, uma economia escravista indígena — estruturalmente dependente do cativo da terra, não do africano.
III. Tipologia das bandeiras
O CACD distingue diferentes formatos de expedição que o candidato precisa saber diferenciar:
Bandeiras de apresamento — voltadas à captura e escravização de indígenas. As mais frequentes e as que mais conflito geraram com os jesuítas. A expedição de Manuel Preto e Raposo Tavares (1629) contra o Guairá é o exemplo mais citado.
Sertanismo de contrato — expedicionários contratados pelo governo para missões específicas. O exemplo mais cobrado é Domingos Jorge Velho, contratado para destruir o Quilombo dos Palmares (1694). Esse caso ilustra o ponto central sobre a relação entre bandeiras e Coroa: quando convinha à metrópole, os bandeirantes serviam diretamente ao poder colonial.
Expedições mineradoras — tornaram-se centrais no final do século XVII. Borba Gato no Rio das Velhas próximo a Sabará (c. 1695) e Antônio Dias de Oliveira nas proximidades do futuro Ouro Preto (1698) são os marcos iniciais das descobertas que transformariam o século XVIII.
Monções — expedições fluviais do século XVIII para o Centro-Oeste, partindo de Itu e Porto Feliz pelos rios Tietê, Paraná e Paraguai em direção ao Mato Grosso. Representam a vertente fluvial da expansão e foram o principal meio de abastecimento e comunicação com as minas do Centro-Oeste. Sérgio Buarque de Holanda, em Monções (1945) e Caminhos e Fronteiras (1957), analisa as monções como o momento em que o bandeirante se sedentariza, torna-se criador e colono — a transição do apresamento nômade para a ocupação permanente.
Para o CACD (TPS 2011): A banca considerou ERRADA a afirmação de que "bandeiras, entradas e monções se associavam à captura de mão de obra escrava indígena" junto com as "companhias de guerra." As companhias de guerra eram unidades militares distintas das bandeiras. A banca também considerou ERRADO que as bandeiras terminaram no século XVI — elas começaram nesse período e perduraram até o XVIII (TPS 2019).
IV. Expansão territorial: de Tordesilhas ao uti possidetis
O efeito geopolítico mais duradouro do bandeirismo foi a expansão territorial para além dos limites de Tordesilhas. As bandeiras penetraram em Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Amazônia e até o Rio da Prata — territórios que eram, pelo tratado de 1494, espanhóis.
Dois episódios são especialmente cobrados pelo CACD:
Pedro Teixeira percorreu o Rio Amazonas de Belém até Quito em 1637–1639, estabelecendo precedente geopolítico fundamental para a presença lusa na Amazônia. A expedição plantou marcos territoriais e produziu relatório que seria invocado nas negociações do século XVIII como evidência de ocupação efetiva.
Raposo Tavares empreendeu, entre 1648 e 1652, uma viagem de mais de 12 mil quilômetros que partiu de São Paulo, cruzou o Chaco, atingiu a bacia amazônica e desceu o Rio Amazonas até o Pará — a maior jornada terrestre e fluvial da história colonial americana. Jaime Cortesão a chamou de "Bandeira dos Limites", argumentando que tinha dimensão geopolítica estatal, não apenas privada.
Essas travessias forneceram a base factual para o princípio do uti possidetis — quem ocupa, possui — que Alexandre de Gusmão consagraria no Tratado de Madri (1750). O argumento jurídico de Gusmão era simples mas revolucionário: os tratados anteriores (Tordesilhas, 1494) haviam definido fronteiras por linhas imaginárias sem referência à ocupação real. O uti possidetis substituía a linha abstrata pela presença concreta: o que Portugal havia ocupado, construído e habitado era português, independentemente do meridiano. O mapa que Gusmão levou para as negociações com a Espanha era, em larga medida, o mapa que os bandeirantes tinham desenhado com seus pés.
Para o CACD (TPS 2022, Q44, item 4 — CERTO): "Anulando o Tratado del Pardo de 1761, o Tratado de San Ildefonso de 1777 retomava o princípio do uti possidetis consagrado no Tratado de Madri de 1750 e confirmava, para a Coroa portuguesa, os territórios ocupados no centro-oeste e na Amazônia por meio de bandeiras, entradas e monções." Esse item foi considerado CERTO — é a formulação mais precisa da conexão entre bandeirismo e diplomacia que a banca usa.
V. O Tratado de Madri (1750) e a Guerra Guaranítica: a consequência inesperada
O Tratado de Madri, que o bandeirismo tornou possível, gerou uma consequência que o CACD cobra com frequência e que revela as contradições do projeto colonial: a Guerra Guaranítica (1754–1756).
O tratado trocou a Colônia do Sacramento — ponto de presença portuguesa no Prata, sucessivamente disputada — pelos Sete Povos das Missões, no atual Rio Grande do Sul. A lógica geopolítica era de Portugal: valia abrir mão de um enclave distante e indefensável para obter o reconhecimento do imenso território interior. A Espanha, por sua vez, recebia Sacramento para bloquear o acesso português ao Prata.
O problema estava nos Sete Povos: eram missões jesuíticas onde viviam cerca de 30 mil guaranis organizados em prósperas reduções com agricultura, artesanato, arquitetura sofisticada e milícias próprias. O Tratado de Madri determinava que os habitantes das missões se transferissem para território espanhol — mas os guaranis recusaram. Liderados por Sepé Tiaraju, resistiram militarmente tanto às tropas portuguesas quanto às espanholas que vieram implementar a transferência.
A guerra foi suprimida com violência: Sepé Tiaraju foi morto em combate em fevereiro de 1756; a batalha de Caibaté (7 de fevereiro de 1756) dizimou as forças guaranis, com estimativas de 1.500 a 1.700 mortos. Os Sete Povos foram transferidos — e progressivamente desintegrados.
Para o CACD: A Guerra Guaranítica ilustra dois pontos que a banca cobra: (1) o uti possidetis não era humanitário — transferia populações indígenas de acordo com interesses diplomáticos europeus, sem consulta; (2) as missões jesuíticas não eram apenas "proteção religiosa" — eram organizações político-militares com capacidade de resistência armada. A afirmação "o Tratado de Madri foi implementado sem resistência significativa" é ERRADA.
A anulação do Tratado de Madri pelo Tratado del Pardo (1761) — sob pressão espanhola — e sua subsequente reafirmação pelo Tratado de San Ildefonso (1777) mostram que o uti possidetis era princípio suficientemente sólido para sobreviver a uma reversão temporária. San Ildefonso confirmou as posses portuguesas no centro-oeste e na Amazônia, cedeu os Sete Povos e a Colônia do Sacramento à Espanha — num equilíbrio que o artigo sobre tratados de limites desenvolve em detalhe.
VI. A relação com a Coroa: complementaridade, não oposição
Um dos pontos mais testados pelo CACD sobre o bandeirismo é a relação entre as expedições e a Coroa portuguesa. A narrativa popular — e a armadilha da prova — é a da oposição: bandeirantes como rebeldes que agiam contra as determinações metropolitanas.
A realidade era mais complexa. Synesio Sampaio Goes Filho, em Navegantes, Bandeirantes, Diplomatas, demonstrou que interesses públicos e privados se confundiam de maneira recorrente. Quando os bandeirantes destruíam missões jesuíticas no Guairá, agiam à revelia de Roma e muitas vezes contrariavam ordens régias. Quando Domingos Jorge Velho destruiu Palmares, era agente contratado da Coroa. Quando Pedro Teixeira subiu o Amazonas, levava instruções do governador do Estado do Maranhão.
O debate historiográfico produz interpretações distintas que o CACD gosta de cobrar:
- Sérgio Buarque de Holanda: movimento essencialmente endógeno, impulsionado por fatores locais (pobreza e isolamento), não por ordens da Coroa. Iniciativa privada com resultados que a Coroa só ex post aproveitou.
- Caio Prado Júnior: enfatizou o papel geopolítico de São Paulo como elo entre litoral e sertão, articulando a expansão ao processo mais amplo da colonização mercantilista.
- Jaime Cortesão: atribuiu às bandeiras dimensão geopolítica e estatal desde o início — exemplificada pela expedição de Raposo Tavares como projeto do Império Português, não iniciativa privada.
- Paulo Prado: defende organização puramente local, sem articulação estatal.
Para o CACD (TPS 2011): A banca considerou ERRADA a afirmação de que as bandeiras se deram "em oposição às determinações da Coroa portuguesa." A relação era de complementaridade ambígua: às vezes em conflito com Lisboa, às vezes a serviço direto dela. Essa ambiguidade é a resposta correta — e qualquer assertiva que reduza a relação a pura oposição ou pura obediência é, por definição, incompleta.
VII. O conflito com os jesuítas
Entre 1610 e 1632, as bandeiras destruíram sistematicamente as missões e reduções jesuíticas no Guairá (atual Paraná e oeste do Paraguai) e no Tape (atual Rio Grande do Sul). Essas reduções abrigavam dezenas de milhares de guaranis — mão de obra que os bandeirantes cobiçavam e que os jesuítas protegiam.
As tensões explodiram nas décadas de 1630 e 1640, quando decisões papais e régias reiteraram a proibição da escravização indígena. São Paulo respondeu com violência: em 1640, os jesuítas foram expulsos da capitania. Retornariam apenas em 1653.
Alguns historiadores interpretaram os ataques às reduções como eliminação de "estados rivais" — o chamado Império Guaranítico —, facilitando a expansão luso-brasileira em áreas estratégicas. É uma leitura funcionalista que a historiografia contemporânea usa com cautela, mas que aparece em questões de prova: há elementos reais nessa interpretação (as missões eram organizações autônomas com milícias próprias), mas ela supõe um nível de planejamento estratégico que a documentação não confirma.
O conflito jesuíta-bandeirante não se limitou ao Sul. No Maranhão, o Padre António Vieira (a partir de 1653) denunciou a escravização indígena com eloquência que irritava profundamente os colonos. O embate resultou na Revolta de Beckman (1684), em que colonos maranhenses expulsaram tanto os jesuítas quanto a Companhia de Comércio do Maranhão — fundindo a questão da mão de obra indígena com a questão do monopólio comercial. Os jesuítas retornaram dois anos depois; a expulsão definitiva viria com Pombal em 1759.
VIII. A colonização do Norte e do Sul: os dois outros vetores
Paralelamente à expansão paulista, a colonização da Amazônia seguiu dinâmica distinta — e o CACD cobra essa distinção com frequência.
Após a expulsão dos franceses do Maranhão em 1615, a fundação do Forte do Presépio em 1616 consolidou Belém como base da penetração amazônica. O Estado do Maranhão e Grão-Pará, criado em 1621 e autônomo em relação ao Estado do Brasil até 1774, refletia tanto as dificuldades de comunicação com Salvador quanto a lógica econômica distinta da região: baseada nas "drogas do sertão" — baunilha, cravo, salsaparrilha, cacau silvestre — coletadas por indígenas sob supervisão missionária. Por volta de 1740, mais de 50 mil indígenas viviam sob tutela jesuítica no Norte.
A expansão para o Sul seguia lógica militar-colonizadora. A Colônia do Sacramento (1680) foi o ponto mais avançado da ambição territorial portuguesa no extremo meridional — e o mais disputado. Sucessivamente atacada e recuperada, refletia as tensões com a Espanha pelo controle da bacia do Prata. A fundação de Montevidéu pelos espanhóis em 1726 buscou isolar Sacramento. Portugal respondeu colonizando a região da Lagoa dos Patos com casais açorianos, sob articulação de Alexandre de Gusmão — o mesmo diplomata que, em 1750, negociaria o Tratado de Madri.
Para o CACD (TPS 2017): A banca já considerou ERRADA a afirmação de que o Forte do Presépio (Belém) existia no século XVI. Belém é do século XVII (1616). Sacramento também é do XVII (1680). Confundir os séculos é uma das armadilhas cronológicas mais frequentes sobre o tema.
IX. A consolidação pombalina: do mapa bandeirante ao Estado colonial moderno
Esta é a seção completamente ausente no artigo original — e aquela que, talvez mais do que qualquer outra, demonstra como o bandeirismo e o período pombalino são capítulos do mesmo processo de construção territorial.
O Marquês de Pombal herdou um mapa que os bandeirantes haviam desenhado e uma fronteira que o Tratado de Madri havia formalizado — mas com pontos críticos ainda frágeis: o Mato Grosso e Goiás eram ocupados de forma esparsa, e o limite oeste do Brasil precisava de presença efetiva para ser sustentável diplomaticamente.
A resposta foi a fundação de cidades nas fronteiras como instrumentos deliberados de soberania. Vila Bela da Santíssima Trindade (1752), fundada no coração do Mato Grosso próximo à fronteira com os domínios espanhóis, é o exemplo mais eloquente: foi criada especificamente como capital da nova Capitania de Mato Grosso e como demonstração de presença portuguesa num território que Tordesilhas atribuiria à Espanha. Seu fundamento era o uti possidetis recém-consagrado em Madri — e sua localização era uma mensagem geopolítica. O Manual do Candidato é explícito: "A realidade jurídica, junto com a criação de cidades, era o meio institucional de a Coroa portuguesa dar corpo a seu projeto colonial de ocupação daquele território."
A extinção do Estado do Maranhão e Grão-Pará em 1774 — unificando toda a colônia num único Estado do Brasil sob autoridade do vice-rei no Rio de Janeiro — foi outro ato pombalino de consolidação territorial: eliminava a dualidade administrativa que havia servido à separação funcional, mas que na nova fase criava fragmentação política inconveniente.
O terceiro pilar da consolidação pombalina do território foi o Diretório dos Índios (1757). Com a expulsão dos jesuítas em 1759 — que administravam aldeamentos onde viviam dezenas de milhares de indígenas —, havia o risco de colapso demográfico e produtivo nas regiões onde a missão era a principal estrutura organizacional. O Diretório criou um sistema de administração secular: funcionários civis (diretores) substituíam os padres, os índios eram declarados formalmente livres e inseridos no mercado de trabalho remunerado, e o casamento entre brancos e indígenas era explicitamente incentivado.
Os efeitos práticos foram profundamente ambíguos. A exploração do trabalho indígena continuou, agora sob supervisão civil em vez de eclesiástica. Os diretores tornaram-se muitas vezes tão abusivos quanto os colonos que os antecederam. O português foi imposto como língua exclusiva — acelerando a destruição das culturas nativas. E a extinção formal do Diretório em 1798 deixou as populações indígenas sem qualquer estrutura de proteção, acelerando o processo de esbulho territorial que o século XIX chamaria de "civilização dos índios".
Para o CACD: A relação entre bandeirismo e período pombalino é uma conexão cross-disciplinar que a banca explora crescentemente. O argumento é: (1) os bandeirantes construíram de fato o território; (2) o Tratado de Madri formalizou juridicamente essa posse via uti possidetis; (3) Pombal consolidou institucionalmente o território com cidades de fronteira, reorganização administrativa e o Diretório dos Índios. Os três momentos são facetas do mesmo processo de construção do Brasil como unidade territorial — e tratar qualquer um deles como episódio isolado empobrece a análise.
X. A historiografia: entre a "lenda branca" e a "lenda negra"
A mitificação dos bandeirantes é uma construção tardia — e o CACD cobra essa distinção historiográfica.
Na literatura jesuítica do século XVII, como a de Antonio Ruiz de Montoya (Conquista Espiritual, 1639), os bandeirantes eram retratados como destruidores e escravizadores — a chamada "lenda negra." No século XVIII, cronistas paulistas como Frei Gaspar da Madre de Deus e Pedro Taques buscaram reabilitar a imagem dos sertanistas.
A mitificação positiva consolidou-se no século XX. Alfredo Ellis Jr. e Afonso de E. Taunay exaltaram a "bravura" e o "espírito democrático" paulistas nas décadas de 1920. Ellis Jr. chegou a falar, com vocabulário racialista, em "raça de gigantes." Essas interpretações ganharam materialidade em monumentos — como o Monumento às Bandeiras de Victor Brecheret em São Paulo, inaugurado em 1953 — e foram instrumentalizadas politicamente pelo Estado Novo e pela Ditadura Militar como mito fundacional da identidade paulista e brasileira.
A crítica contemporânea, representada por Darcy Ribeiro e especialmente por John Manuel Monteiro (Negros da Terra, 1994), enfatizou o genocídio indígena e a escravização como dimensões centrais que a narrativa heroica sistematicamente ocultava. Capistrano de Abreu já questionava, décadas antes, se a expansão territorial justificava os horrores cometidos.
A tendência contemporânea é buscar equilíbrio: reconhecer a brutalidade sem anacronismos moralizantes, valorizar o papel territorial sem romantizar os meios. Para o candidato ao CACD, esse equilíbrio é também metodológico: a prova não quer julgamentos morais retrospectivos — quer a capacidade de identificar os interesses em jogo, os mecanismos de poder e os efeitos de longo prazo.
XI. O fim das bandeiras, o ouro e a transformação do sertanismo
O bandeirismo não terminou com uma data precisa — foi se transformando à medida que o contexto mudava. O declínio das bandeiras de apresamento após 1680 coincidiu com dois processos simultâneos: a crescente dificuldade de capturar indígenas em regiões cada vez mais distantes e a descoberta do que os bandeirantes haviam procurado durante décadas.
Em c. 1695, Borba Gato associou seu nome às primeiras jazidas significativas no Rio das Velhas. Em 1698, Antônio Dias de Oliveira identificou ouro nas proximidades do que seria Ouro Preto. Em poucos anos, a corrida ao ouro transformaria radicalmente a colônia.
O bandeirismo havia cumprido sua função histórica em duas etapas distintas: na primeira, expandiu o território e abasteceu de mão de obra indígena a economia colonial; na segunda, descobriu o ouro e desbravou o Centro-Oeste para as monções. A brutalidade e a grandeza territorial eram as duas faces da mesma moeda — e o Estado pombalino, ao herdar o mapa que os bandeirantes haviam construído, transformou essa herança num fundamento jurídico sólido para as negociações de fronteira que definem o Brasil até hoje.
Síntese para a prova
| Conceito | Interpretação correta | Armadilha frequente |
|---|---|---|
| São Paulo = dinamismo econômico | São Paulo era pobre; bandeiras foram alternativa à pobreza | "Bandeiras expressavam prosperidade paulista" — ERRADO (TPS 2005/2011) |
| Bandeiras = oposição à Coroa | Complementaridade ambígua; às vezes conflito, às vezes serviço direto | "Bandeiras agiram em oposição à Coroa" — ERRADO (TPS 2011) |
| Bandeiras terminaram no séc. XVI | Começaram no XVI e perduraram até o XVIII | "As bandeiras encerraram-se no século XVI" — ERRADO (TPS 2019) |
| Companhias de guerra = apresamento | Companhias eram unidades militares; apresamento era função de bandeiras e entradas | Confundir as duas — ERRO DE DISTINÇÃO (TPS 2011) |
| John Manuel Monteiro — Negros da Terra | Apresamento sustentava economia paulista em si, não apenas o açúcar nordestino | Reduzir a escravidão indígena ao serviço do Nordeste — INCOMPLETO |
| Pedro Teixeira | Amazonas até Quito (1637–1639); precedente geopolítico da soberania lusitana na Amazônia | "Teixeira agiu por iniciativa exclusivamente privada" — DEBATÍVEL |
| Raposo Tavares | 12 mil km (1648–1652); "Bandeira dos Limites" (Cortesão); base para o uti possidetis | Tratar como aventura privada sem dimensão geopolítica — INCOMPLETO |
| Uti possidetis e Tratado de Madri | Ocupação efetiva como fundamento jurídico superior a tratados de linhas abstratas; Gusmão como arquiteto | "O Tratado de Madri baseou-se exclusivamente em Tordesilhas" — ERRADO |
| San Ildefonso (1777) e uti possidetis | San Ildefonso retomava o princípio de Madri após o interlúdio do Tratado del Pardo (1761) | "San Ildefonso abandonou o uti possidetis" — ERRADO (TPS 2022, item CERTO) |
| Guerra Guaranítica (1754–1756) | Consequência direta do Tratado de Madri; guaranis resistiram à transferência; Sepé Tiaraju | "O Tratado de Madri foi implementado sem resistência" — ERRADO |
| Vila Bela da Santíssima Trindade (1752) | Fundada por Pombal como instrumento de soberania na fronteira oeste; capital do Mato Grosso | "A consolidação do Mato Grosso foi obra exclusiva dos bandeirantes" — INCOMPLETO |
| Diretório dos Índios (1757) | Substituiu os jesuítas expulsos com tutela secular; perpetuou exploração sob nova forma | "O Diretório libertou efetivamente os índios" — ERRADO |
| Forte do Presépio (Belém) | Fundado em 1616, século XVII | "Belém foi fundada no século XVI" — ERRADO (TPS 2017) |
| Sacramento | Fundada em 1680, século XVII | Confundir com séculos anteriores — ERRO CRONOLÓGICO |
| Lenda branca vs. lenda negra | Ellis Jr./Taunay (exaltação heroica) ↔ Montoya/Monteiro (genocídio e escravização); equilíbrio analítico como posição contemporânea | Escolher um dos extremos sem relativizar — SIMPLIFICAÇÃO |
Este artigo integra o módulo de História do Brasil Colonial do Acervo CACD. O próximo texto aborda o ciclo do ouro e a sociedade mineradora no século XVIII.
Referências de aprofundamento
- MONTEIRO, John Manuel. Negros da Terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo.
- GOES FILHO, Synesio Sampaio. Navegantes, Bandeirantes, Diplomatas. FUNAG/IRBr, 1999
- HOLANDA, Sérgio Buarque de. Monções. São Paulo: Brasiliense, 1945; Caminhos e Fronteiras. Rio de Janeiro: José Olympio, 1957
- CORTESÃO, Jaime. Raposo Tavares e a formação territorial do Brasil.
- ALMEIDA, João Daniel Lima de. Manual do Candidato — História do Brasil. FUNAG, 2013, Caps. 1.4–1.6
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. Cap. 3